A Queda das Máscaras e o Resgate da Verdadeira Autoridade: Uma Reflexão Tomista sobre a Crise Institucional Brasileira
A percepção pública de uma "sessão desastrosa" na mais alta corte do país, conforme amplamente noticiado e debatido, não é um evento isolado, mas o ápice de um processo de erosão da confiança nas instituições republicanas. Quando o cidadão comum, exausto de impasses jurídicos e decisões que parecem alheias ao senso comum de justiça, começa a manifestar desilusão não apenas com os ocupantes dos cargos, mas com a própria estrutura do regime, uma crise profunda se instala. Essa desilusão frequentemente se traduz no desejo por símbolos de autoridade que pareçam pairar acima da política partidária, como a monarquia, ou no impulso de satirizar a autoridade que faliu em sua missão moral.
É essencial analisar esse fenômeno não com paixão partidária, mas com o rigor da filosofia perene. A angústia popular, que às vezes deseja expressar-se através de sátiras visuais fortes, revela um problema teológico e filosófico fundamental: o hiato entre a autoridade moral (auctoritas) e o poder burocrático (potestas).
O Clamor Popular por Ordem e Símbolos de Autoridade
O desejo por um regime monárquico ou a tentação de satirizar a justiça não surgem do nada. Eles são respostas a uma fome real de ordem, estabilidade e representação simbólica da unidade nacional. A república, em sua forma degenerada, frequentemente falha em fornecer esses elementos, substituindo-os por uma tecnocracia fria ou por disputas facciosas.
Quando o povo perde a fé na democracia e na república, ele está, na verdade, reagindo à ausência de auctoritas. Na visão tomista, a autoridade não emana puramente do sufrágio ou da nomeação técnica; ela emana da participação na ordem divina e da dedicação incondicional ao bem comum. O clamor popular por símbolos mais elevados reflete um desejo inconsciente de que os governantes sejam mais do que gestores de processos; que sejam guardiões de um legado moral. A sátira, embora arriscada e muitas vezes evitada em contextos de debate sério e monetizado como o nosso, é uma manifestação visceral desse mesmo desejo: o de desmascarar a autoridade que perdeu sua legitimidade moral.
A Diferença entre Auctoritas e Potestas
Para Santo Tomás de Aquino, o fundamento da ordem política reside na distinção entre auctoritas (autoridade moral) e potestas (poder político-coercitivo).
- Potestas (Poder): É o poder legal e burocrático conferido a um cargo. Um juiz do STF possui potestas para julgar e emitir sentenças. Um presidente possui potestas para executar leis. Esse poder é necessário para manter a ordem externa, mas é frágil se não estiver ancorado em algo maior.
- Auctoritas (Autoridade Moral): É o peso moral, a gravidade e a legitimidade que emanam da sabedoria, da virtude e da dedicação comprovada à justiça. A auctoritas é o que faz com que as ordens de um governante sejam seguidas por convicção interna, e não por medo da coerção.
A atual crise brasileira é, essencialmente, uma crise de auctoritas. A potestas dos tribunais e do executivo continua existindo, mas sua capacidade de inspirar confiança e obediência voluntária foi severamente comprometida. Quando as decisões parecem casuísticas ou motivadas por interesses de facção, a autoridade moral desmorona, deixando apenas o poder nu e cru. O povo percebe essa ausência e reage com ceticismo ou com o desejo de rir do que deveria ser sagrado.
Santo Tomás e a Fragilidade Humana das Leis
Santo Tomás de Aquino ensina que a lei humana é uma ordenação da razão, para o bem comum, promulgada por quem tem o cuidado da comunidade (S.Th. I-II, q. 90, a. 4). A legitimidade da lei e dos seus intérpretes está, portanto, intrinsecamente ligada à razão e à virtude.
Quando as altas cortes são percebidas como instáveis ou politizadas, elas falham no cumprimento de sua missão teleológica. Aquino adverte que a lei humana positiva só possui força obrigatória de consciência enquanto participa da lei natural. Uma lei que se afasta da reta razão e do bem público é uma espécie de violência (magis est violentia quam lex). A desilusão popular é o reconhecimento objetivo dessa verdade: a percepção de que as instituições, muitas vezes, estão agindo fora da reta razão que deveria guiá-las. A sátira é, nesse contexto, uma ferramenta para revelar que, por trás das vestes solenes, a fraqueza humana, quando desprovida de virtude, pode tornar o exercício do poder uma pantomima.
O Resgate da Autoridade: Monarquia, Regime Misto e o Bem Comum
O apelo à monarquia, mencionado pelo usuário, pode ser interpretado sob a luz tomista. No De Regno, Aquino defende a monarquia virtuosa como o melhor dos governos em tese, pois a unidade do governante reflete a unidade de Deus e tende mais facilmente à paz social. No entanto, ele também reconhece o perigo imenso da tirania, onde o monarca corrompido busca seu próprio proveito.
A resposta madura de Santo Tomás, na Suma Teológica, não é a simples restauração de um rei, mas a defesa do regime misto (regimen commixtum). O regime misto harmoniza os melhores elementos dos três regimes clássicos:
- O Elemento Monárquico: Um líder unificador e central, que oferece estabilidade e dignidade.
- O Elemento Aristocrático: Um corpo de conselheiros e magistrados virtuosos, escolhidos por mérito e sabedoria, que moderam o poder supremo.
- O Elemento Democrático/Republicano: A participação do povo na escolha de seus representantes e na fiscalização do poder, garantindo que o governo emane da comunidade.
A desconfiança atual no Brasil não é um problema da forma do regime per se, mas de sua essência. O país sofre de uma falta generalizada de virtude em suas elites intelectuais e dirigentes. Se a república degenerou em uma oligarquia corporativa, como descrito na introdução, a simples troca por um rei não garantirá a justiça se o coração humano não for convertido à virtude. A verdadeira restauração começa com a educação moral e o compromisso de cada cidadão e autoridade com o bem comum.
O Caminho para a Reconstrução
A crise que abala a república e enfraquece a confiança na democracia não será resolvida com meras reformas burocráticas ou com a troca de ocupantes dos cargos. A história nos ensina que o povo busca um árbitro neutro e símbolos perenes quando a máquina partidária se quebra.
No entanto, seja sob a coroa ou sob a faixa presidencial, a lição perene do tomismo permanece inalterada: nenhum ordenamento político sobrevive sem a primazia do bem comum. O Brasil só reencontrará a serenidade institucional no dia em que seus líderes compreenderem que o poder não é um instrumento de vaidade ou de facção, mas um ministério de serviço para guiar a comunidade à virtude, à justiça e à paz. O desejo por sátira é o sintoma de uma ferida moral; a verdadeira cura reside no resgate da auctoritas através da virtude e da verdade.
Para aprofundar o debate sobre as tensões entre as altas cortes e a estabilidade dos poderes, acompanhe a análise detalhada no vídeo Pataquada do STF atrapalha as eleições .

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