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sábado, 23 de agosto de 2025

A Sabedoria de Tomás de Aquino: O que a Razão e a Fé Dizem Sobre o Pecado do Adultério?

Em um mundo saturado por manchetes sobre a vida pessoal de celebridades, como o recente caso envolvendo o jogador David Luiz, a discussão sobre a infidelidade conjugal muitas vezes se limita ao drama emocional e à exposição midiática. Contudo, para além do sofrimento e da quebra de confiança, existe uma dimensão mais profunda que nossa cultura moderna frequentemente ignora. O que diria um dos maiores intelectos da história da Igreja, Santo Tomás de Aquino, sobre o pecado do adultério? Longe de ser uma mera condenação moralista, a análise tomista revela o adultério como um ato profundamente irracional, uma desordem que atenta não apenas contra Deus, mas contra a própria estrutura da realidade. Convidamos você a mergulhar na mente do Doutor Angélico para compreender por que a fidelidade é, acima de tudo, um ato de suprema justiça e razão.

Para Além da Emoção: O Adultério como um Ato Contra a Razão

Para entender o pensamento de Tomás de Aquino, é preciso primeiro compreender um de seus conceitos fundamentais: a Lei Natural. Para o santo, Deus inscreveu no coração da criação uma ordem, uma finalidade para todas as coisas. A razão humana tem a capacidade de perceber essa ordem. Agir moralmente, portanto, é agir de acordo com a razão, em harmonia com a finalidade para a qual fomos criados.

O casamento e a sexualidade, dentro dessa visão, possuem uma finalidade clara e ordenada. Primariamente, visam a procriação e a educação dos filhos, garantindo a continuidade da espécie humana de forma estável e segura. Secundariamente, visam o bem dos próprios cônjuges, a ajuda mútua e a união fiel de suas vidas.

O adultério, nesse contexto, é visto como um ato intrinsecamente irracional. Ele toma o ato sexual, que tem uma finalidade nobre e ordenadora, e o desvia para fora do seu contexto próprio e justo. É usar um bem poderoso para um fim desordenado, separando seus aspectos unitivo e procriativo do compromisso que lhes dá sentido. Para Tomás, não se trata apenas de "ferir sentimentos"; trata-se de cometer uma profunda injustiça, uma violação da ordem natural das coisas.

A Injustiça em Múltiplas Frentes: A Quem o Adultério Ofende?

A análise tomista sobre o adultério é, em sua essência, uma análise sobre a justiça. O Doutor Angélico demonstraria que este pecado não é um ato privado, mas uma teia de injustiças que se espalha em várias direções.

A Injustiça Contra o Cônjuge

Este é o nível mais evidente. O matrimônio é um pacto, um contrato de doação mútua e exclusiva. Ao cometer adultério, a pessoa viola um juramento solene. Tomás veria isso não apenas como uma mentira, mas como uma forma de roubo. Rouba-se do cônjuge aquilo que lhe é devido por direito: a exclusividade do corpo, da intimidade e da fidelidade prometida. É uma quebra da fides, a confiança fundamental que sustenta o vínculo. A pessoa adúltera trata seu próprio corpo e o corpo de seu cônjuge como propriedades a serem usadas para o prazer momentâneo, e não como sinais de uma aliança sagrada.

A Injustiça Contra os Filhos

Para Tomás de Aquino, a estabilidade do lar é o ambiente essencial para a correta educação da prole. O adultério ataca diretamente essa estabilidade. Ele introduz a incerteza, a duplicidade e o escândalo no seio da família, que deveria ser o primeiro lugar de aprendizado da virtude e da segurança. Mais grave ainda, atenta contra o bem da criança ao potencialmente gerar filhos fora do leito conjugal, privando-os do direito de nascer e ser criados por seus pais unidos em um vínculo estável e reconhecido. A certeza da paternidade, fundamental para a ordem social, é posta em xeque, o que para Tomás era um gravíssimo desarranjo.

A Injustiça Contra a Sociedade

Seguindo a tradição de Aristóteles, Tomás de Aquino via a família como a célula fundamental da sociedade. Uma sociedade saudável é construída sobre famílias saudáveis. Quando o adultério se torna comum ou é tratado com leviandade, a própria noção de pacto, de fidelidade e de compromisso a longo prazo é erodida na cultura. Se os juramentos mais íntimos e solenes podem ser quebrados por conveniência ou paixão, que valor terão os outros contratos sociais? A desordem no microcosmo da família, para o Aquinate, inevitavelmente gera desordem no macrocosmo da cidade e da nação.

A Injustiça Contra Deus

Em última instância, toda a teologia moral tomista culmina em Deus. O pecado do adultério é uma ofensa contra Deus por múltiplas razões. Primeiro, viola Seu mandamento explícito ("Não cometerás adultério"). Segundo, profana o sacramento do matrimônio, que é um sinal visível da união de Cristo com a Igreja. Terceiro, e de forma mais filosófica, é um ato de preferir um bem criado e finito (o prazer momentâneo, a satisfação de uma paixão) ao Bem Infinito, que é Deus. É uma desobediência à Lei Eterna, a ordem sábia com que Deus governa o universo.

A Paixão Desordenada e a Vontade Fraca

Então, por que as pessoas cometem adultério, se é um ato tão contrário à razão e à justiça? Tomás não era ingênuo. Ele entendia perfeitamente a força das paixões humanas (o que hoje chamaríamos de emoções e desejos intensos).

Para ele, o ser humano é uma composição de corpo e alma, com diferentes "apetites" ou inclinações. Temos o apetite intelectual (a vontade, que busca o bem conhecido pela razão) e os apetites sensíveis (as paixões, que buscam o prazer e evitam a dor). O pecado acontece quando a vontade, que deveria seguir o ditame da razão, se deixa escravizar pela paixão.

No caso do adultério, a paixão da concupiscência (o desejo sexual desordenado) se apresenta de forma tão intensa que a razão, embora saiba que é errado, é ofuscada. A vontade, enfraquecida por maus hábitos ou falta de virtude, cede e escolhe o bem aparente e imediato (o prazer) em detrimento do bem real e duradouro (a fidelidade, a justiça, a salvação da alma). Não é que a paixão seja má em si mesma, mas ela se torna destrutiva quando não é governada e ordenada pela razão e pela .

A Relevância Eterna da Razão Tomista

As notícias vêm e vão, e as figuras públicas continuarão a falhar. O que permanece é a verdade sobre a natureza humana e a ordem moral. A perspectiva de Santo Tomás de Aquino sobre o adultério nos resgata de uma análise puramente sentimentalista e nos oferece um diagnóstico robusto e racional.

Ele nos ensina que a fidelidade matrimonial não é um ideal romântico e frágil, mas um pilar de justiça que sustenta o indivíduo, a família e a sociedade. O adultério, por sua vez, não é um simples "deslize", mas uma falha da razão, uma injustiça multifacetada e uma desordem que nos afasta de nossa finalidade última: a felicidade encontrada na união com Deus. A sabedoria de Aquino, com mais de 700 anos, continua a ser uma luz poderosa para iluminar a confusão moral de nossos tempos, lembrando-nos que os mandamentos de Deus não são imposições arbitrárias, mas o próprio manual de instruções para uma vida plena, justa e verdadeiramente humana.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

A Paz dos Homens e a Vontade de Deus: O Que Tomás de Aquino Diria Sobre a Reunião Pelo Cessar-Fogo?

Em um mundo marcado por tensões geopolíticas crescentes e conflitos que ceifam vidas inocentes, a notícia de um encontro de cúpula entre líderes globais, como o ocorrido no Alasca, para discutir um cessar-fogo, ressoa com um misto de esperança e ceticismo. Enquanto analistas modernos dissecam as implicações estratégicas, econômicas e políticas, uma perspectiva mais profunda, enraizada na tradição intelectual cristã, oferece uma lente poderosa para avaliar tais eventos. Mergulhar no pensamento de Santo Tomás de Aquino, o "Doutor Angélico", não é um exercício de anacronismo, mas uma busca por princípios atemporais que podem iluminar os dilemas mais complexos do nosso tempo. O que este gigante da Teologia e da filosofia diria sobre os esforços humanos para alcançar a paz em meio à guerra?

A Natureza da Verdadeira Paz Segundo o Aquinate

Para Tomás de Aquino, a paz (pax) é muito mais do que a simples ausência de guerra. Em sua monumental Suma Teológica, ele a define, ecoando Santo Agostinho, como a "tranquilidade da ordem" (tranquillitas ordinis). Esta não é uma tranquilidade estática ou vazia, mas o resultado dinâmico de todas as partes de uma sociedade funcionando em harmonia, de acordo com a sua natureza e o seu fim devido. A paz, portanto, é um efeito direto da caridade e da justiça.

Ao observar uma reunião de cúpula, a primeira pergunta do Doutor Angélico não seria sobre os ganhos territoriais ou as vantagens econômicas, mas sobre a ordem que se busca estabelecer. Seria uma paz fundamentada na justiça, no respeito à dignidade humana e na busca pelo Bem Comum global? Ou seria uma "paz" pragmática, um mero rearranjo de poder que oprime os fracos e perpetua a injustiça sob um véu de estabilidade? Para Aquino, um cessar-fogo que apenas congela um estado de injustiça não é a verdadeira paz, mas apenas uma pausa no conflito, uma latência da desordem.

A Lupa da Doutrina da "Guerra Justa"

Embora seja um defensor da paz como fruto da caridade, Tomás de Aquino não era um pacifista ingênuo. Ele compreendia que, em um mundo decaído, o uso da força poderia ser um mal necessário para restaurar a ordem e a justiça. Sua formulação da Doutrina da Guerra Justa (Jus Bellum Iustum) estabelece critérios rigorosos para determinar quando um conflito armado é moralmente permissível. Esses mesmos critérios podem ser invertidos para avaliar a legitimidade dos esforços de paz.

1. Auctoritas Principis (A Autoridade do Soberano)

A primeira condição para uma Guerra justa é que ela seja declarada pela autoridade legítima, aquela responsável por cuidar do bem comum da comunidade. Da mesma forma, a negociação da paz deve ser conduzida por aqueles que detêm a autoridade legítima para representar e obrigar suas nações. Aquino veria com bons olhos que os chefes de Estado se reúnam, pois é sua responsabilidade primária buscar a segurança e o bem-estar de seus povos. Contudo, ele os advertiria que essa autoridade não é absoluta; ela é um serviço e uma responsabilidade perante Deus e os homens. A legitimidade de suas ações, seja na guerra ou na paz, depende de sua conformidade com a lei natural e divina.

2. Causa Iusta (Causa Justa)

O segundo e crucial critério é a existência de uma causa justa. Uma guerra só é justa se for para punir um mal, para reparar uma injúria grave ou para defender inocentes. Aplicando este princípio à diplomacia, Aquino insistiria que a causa da paz deve ser igualmente justa. O objetivo de um acordo de cessar-fogo deve ser a retificação de uma injustiça fundamental que deu origem ao conflito. Um acordo que ignora crimes de guerra, legitima agressões territoriais ou sacrifica a liberdade de um povo em troca de estabilidade seria, aos olhos de Aquino, uma paz injusta e, portanto, insustentável. Ele questionaria: "Este acordo serve para restaurar o que foi quebrado ou para consolidar o roubo?"

3. Intentio Recta (Intenção Reta)

A terceira condição é talvez a mais perscrutadora e relevante para a análise de encontros diplomáticos: a intenção dos beligerantes. Mesmo com autoridade legítima e uma causa aparentemente justa, uma guerra se torna imoral se a intenção por trás dela for a ganância, a crueldade, a vingança ou a expansão do poder. Da mesma forma, a busca pela Paz deve ter uma intenção reta.

Aqui, o Doutor Angélico aplicaria sua profunda psicologia moral. Ele nos convidaria a olhar para além dos discursos polidos e dos apertos de mão para a câmera. Qual é a real intenção dos líderes reunidos? É um desejo genuíno de promover a paz e o bem-estar humano, um fruto da virtude da caridade? Ou é uma manobra estratégica motivada pelo medo do declínio econômico, pela pressão política interna, ou pelo desejo de ganhar tempo para se rearmar? Uma paz buscada com intenções impuras – como consolidar o próprio poder ou enganar o adversário – é uma paz falsa, uma construção sobre a areia que a primeira tempestade de ambição derrubará.

A Virtude da Prudência na Arte de Governar

Para além dos critérios da guerra justa, a Filosofia política de Tomás de Aquino exalta a virtude da prudentia (prudência) como a "auriga virtutum" – a cocheira que guia todas as outras virtudes na vida prática. A prudência é a capacidade de deliberar corretamente sobre o que deve ser feito. Um governante prudente não é apenas astuto ou inteligente; ele é capaz de ver a realidade como ela é, de antecipar as consequências de suas ações e de escolher os meios corretos para alcançar fins justos.

Diante da reunião no Alasca, um Tomás de Aquino redivivo provavelmente analisaria as ações dos líderes através da lente da prudência. Eles estão agindo de forma precipitada ou calculada? Estão considerando todas as variáveis e consequências a longo prazo de um acordo? Estão buscando conselhos sábios ou se cercando de bajuladores? A prudência exige realismo, mas um realismo que não se dissocia da moralidade. Um acordo que parece "pragmático" no curto prazo, mas que semeia as sementes de um conflito futuro maior, seria, para Aquino, um ato de profunda imprudência.

Uma Esperança Cautelosa

Afinal, o que Tomás de Aquino diria sobre essa reunião? Ele não ofereceria um endosso ingênuo nem uma condenação cínica. Com sua mente ordenada e sua fé profunda, ele nos ensinaria a ter uma esperança cautelosa.

Ele aprovaria o ato de dialogar, pois a razão e a palavra são os instrumentos dados por Deus ao homem para resolver suas disputas. Ele veria no esforço pela paz um reflexo, ainda que imperfeito, do desejo humano pela ordem divina.

Contudo, ele nos armaria com suas categorias filosóficas e teológicas para sermos vigilantes. Ele nos diria para questionar a base da paz que está sendo construída: é a tranquillitas ordinis da justiça ou o silêncio opressivo do poder? Ele nos exortaria a examinar as intenções ocultas nos corações dos líderes, lembrando que, em última análise, toda autoridade terrena será julgada por um tribunal celestial.

A lição de Tomás de Aquino para nós, observadores do século XXI, é que a paz duradoura não é meramente um produto de tratados e acordos geopolíticos. Ela é o resultado de uma ordem justa, buscada com intenção reta por líderes prudentes que reconhecem uma lei moral superior às suas próprias vontades. Qualquer paz que não se alinhe a esses princípios eternos é, na melhor das hipóteses, temporária e, na pior, uma ilusão perigosa.