A notícia que amanheceu nos trending topics deste dia 3 de janeiro de 2026 não é apenas um fato político; é uma lição metafísica. A prisão de Nicolás Maduro, confirmada e repercutida globalmente, encerra um ciclo de tirania que, aos olhos da filosofia perene, já carregava em si a semente de sua própria destruição. Não olho para este evento apenas com a lente do noticiário internacional, mas sob a luz da Suma Teológica e do opúsculo De Regno. A queda de um tirano nunca é um acidente; é a consequência inevitável da natureza do mal.
A Natureza do Mal: Privatio Boni
Para entender por que o mal "nunca compensa" — e por que regimes como o de Maduro estavam fadados ao colapso —, precisamos recorrer à definição de mal em Santo Tomás de Aquino. O mal não tem substância própria; ele não é uma essência criada por Deus. O mal é privatio boni, a privação do bem. É uma ausência, um buraco na realidade, assim como a escuridão é apenas a ausência de luz.
Um regime político que se sustenta na mentira, na opressão e na injustiça é, ontologicamente, um "não-ser". Ele carece de fundamento na verdade. Durante anos, a estrutura de poder na Venezuela tentou se manter de pé ignorando a Lei Natural, que ordena que o governo deve servir ao bem comum e não aos apetites privados do governante. Ao agir contra a realidade das coisas, o tirano constrói um castelo sobre a areia. A prisão de Maduro hoje é a manifestação física dessa verdade metafísica: o mal não tem sustentação para durar eternamente. O que não tem "ser" (verdade e bondade) acaba, invariavelmente, ruindo.
O Tirano e o Bem Comum: Uma Leitura do De Regno
Em sua obra De Regno (Do Reino), dedicada ao Rei de Chipre, Santo Tomás é cirúrgico ao definir o tirano: é aquele que governa buscando o próprio benefício, desprezando o bem da multidão. A tirania é considerada o pior dos regimes, pois corrompe o melhor (a monarquia justa) em seu oposto mais vil.
Aquinas argumenta que o governo tirânico é instável por natureza. O tirano vive dominado pelo medo, pois quem governa pelo temor e não pelo amor nunca está seguro. A riqueza acumulada ilicitamente, o poder mantido pela força bruta e a supressão das liberdades individuais geram um estado de violência constante que se volta contra o próprio opressor.
A prisão de Maduro ilustra perfeitamente a tese tomista: a tirania isola o governante. Ao buscar um "bem particular" (seu poder e riqueza) em detrimento do "bem universal" da nação, ele se separa da ordem divina. Santo Tomás nos lembra que a amizade é o vínculo que une a sociedade; o tirano, ao destruir a amizade cívica, destrói a base do seu próprio trono. Ele termina sozinho, pois, como dizia o Aquinate, não pode haver lealdade firme onde não há virtude.
A Justiça e a Lei Eterna
Muitos podem perguntar: "Por que demorou tanto?". A perspectiva humana é limitada pelo tempo, mas a Justiça Divina opera na eternidade e reflete-se na história de maneiras misteriosas. Santo Tomás ensina que Deus pode permitir a existência de tiranos como uma forma de punição ou provação para um povo, mas essa permissão não é uma aprovação.
O mal nunca compensa porque ele carrega sua própria punição. Mesmo antes das algemas, o tirano já vivia em uma prisão espiritual. A perda da beatitude, a inquietação da alma e a incapacidade de contemplar a Verdade são castigos piores que qualquer cela física. A prisão material de hoje é apenas a externalização da miséria moral que já habitava aquele governo.
Além disso, a Lei Eterna garante que a ordem violada tende a se restabelecer. A justiça humana, falha e tardia, quando finalmente age em conformidade com a Lei Natural, torna-se um instrumento da Providência. Ver a justiça sendo feita não é motivo de vingança ("schadenfreude"), mas de alívio pelo retorno à ordem. A sociedade precisa ver que a lei vale para todos, para que a confiança na justiça seja restaurada.
O Caminho para a Reconstrução
A Venezuela agora enfrenta o desafio da reconstrução. E aqui, mais uma vez, a lição de Tomás de Aquino é vital. Não basta trocar de governante; é preciso restaurar a virtude. Um país não se levanta apenas com economia, mas com homens e mulheres dispostos a buscar o Bem Comum acima dos interesses privados.
Que a imagem de Maduro preso sirva de memento mori para todos os governantes que flertam com o totalitarismo. O poder que não serve, não serve. O mal pode florescer por um tempo, como a erva daninha, mas, por não ter raízes na verdade do ser, ele seca e é lançado ao fogo. A verdade, e somente a verdade, liberta — tanto as almas quanto as nações.

