Gênesis 13: A Prudência da Caridade e a Renovação da Promessa Divina

1. Então Abrão subiu do Egito para o Neguebe, ele, sua mulher e tudo o que possuía, e Ló com ele.

2. Abrão era muito rico em rebanhos, em prata e em ouro.

3. Ele seguiu seu caminho do Neguebe até Betel, ao lugar onde a princípio tinha armado sua tenda, entre Betel e Ai,

4. Ao lugar do altar que ele ali havia feito pela primeira vez; e ali Abrão invocou o nome do SENHOR.

5. Ora, Ló, que viajava com Abrão, também possuía ovelhas, gado e tendas.

6. E a terra não era suficiente para que habitassem juntos, pois suas posses eram tantas que não podiam viver juntos.

7. E houve contenda entre os pastores dos rebanhos de Abrão e os pastores dos rebanhos de Ló. Naquela época, os cananeus e os ferezeus habitavam na terra.

8. Então Abrão disse a Ló: 'Por favor, não haja contenda entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus, pois somos irmãos'.

9. 'Não está toda a terra diante de ti? Peço-te que te separes de mim. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda'.

10. E Ló levantou os olhos e viu toda a planície do Jordão, que era toda regada, antes que o SENHOR destruísse Sodoma e Gomorra, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito, ao chegares a Soar.

11. Então Ló escolheu para si toda a planície do Jordão, e Ló partiu para o oriente; e assim se separaram um do outro.

12. Abrão habitou na terra de Canaã, e Ló habitou nas cidades da planície e armou suas tendas até Sodoma.

13. Ora, os homens de Sodoma eram grandes malfeitores e pecadores contra o SENHOR.

14. E o SENHOR disse a Abrão, depois que Ló se separou dele: 'Levanta agora os teus olhos e olha desde o lugar onde estás, para o norte, para o sul, para o oriente e para o ocidente';

15. 'Porque toda esta terra que vês, a ti e à tua descendência a darei para sempre'.

16. 'E farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, também a tua descendência será contada'.

17. 'Levanta-te, percorre a terra no seu comprimento e na sua largura; porque a ti a darei'.

18. Então Abrão removeu suas tendas e foi habitar junto aos carvalhos de Manre, que estão em Hebron, e ali edificou um altar ao SENHOR.



Comentário Tomista

O capítulo 13 do Livro do Gênesis nos apresenta uma profunda lição sobre a ordenação da vida humana sob a luz da razão e da fé, refletindo princípios caros à filosofia e teologia de São Tomás de Aquino. Vemos o patriarca Abrão regressar do Egito, abençoado com grande prosperidade material, o que, paradoxalmente, torna-se a causa de uma contenda com seu sobrinho Ló. É neste cenário que a sabedoria divina e a virtude humana se manifestam de modo exemplar.

A contenda entre os pastores de Abrão e Ló, devido à insuficiência da terra para sustentar seus vastos rebanhos, coloca Abrão diante de um dilema. Sua resposta, contudo, é um modelo de prudência (prudentia) e caridade (caritas). A prudência, conforme ensina o Aquinate, é a reta razão do agir (recta ratio agibilium), a virtude intelectual que dirige as ações humanas para o fim devido, considerando as circunstâncias. Abrão, com notável clarividência, reconhece o perigo da discórdia e, em vez de afirmar seu direito de primazia ou posse, propõe uma separação pacífica. Sua motivação é clara: "não haja contenda entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus, pois somos irmãos" (v. 8). Esta declaração revela a virtude da caridade fraterna, que busca o bem do próximo e a unidade, evitando o escândalo e a divisão. Abrão subordina o interesse particular e imediato à paz e ao bem comum de suas casas, que é um aspecto da lei natural inscrita no coração humano, que nos inclina à vida em sociedade e à concórdia.

A atitude de Abrão ao conceder a Ló a primeira escolha da terra é um ato de justiça (iustitia) e generosidade, que eleva a ação acima do mero interesse próprio. Tal magnanimidade reflete uma alma bem ordenada, que não se apega desordenadamente aos bens temporais, mas os considera meios para um fim maior. Ele confia na Providência Divina para sua própria porção, demonstrando a virtude da fé (fides) mesmo diante da incerteza.

Ló, por sua vez, exerce seu livre arbítrio, mas o faz com uma visão predominantemente material. Ele "levantou os olhos e viu toda a planície do Jordão, que era toda regada... como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito" (v. 10). Sua escolha é movida pela atração da prosperidade visível e imediata, pela fertilidade da terra, sem aparente consideração pelo ambiente moral ou espiritual. Ló escolhe a planície do Jordão, armando suas tendas "até Sodoma" (v. 12), uma cidade notória por sua maldade (v. 13). Esta decisão, embora aparentemente vantajosa, ilustra a diferença entre buscar os bens temporais como um fim em si mesmos e ordená-los ao verdadeiro fim último do homem, que é Deus. A desordem do apetite, que busca o prazer e o conforto acima da reta razão e do bem moral, pode levar a escolhas que comprometem a alma.

Contudo, a Divina Providência (providentia divina) manifesta-se de forma surpreendente após a separação. Imediatamente depois que Ló se afasta, o SENHOR reafirma e amplia Sua promessa a Abrão: "Levanta agora os teus olhos e olha desde o lugar onde estás, para o norte, para o sul, para o oriente e para o ocidente; Porque toda esta terra que vês, a ti e à tua descendência a darei para sempre" (v. 14-15). Esta renovação da Aliança, com promessas de terra e descendência numerosa, não é perturbada pela contenda ou pela escolha de Ló, mas antes parece ser confirmada e purificada pela separação. Deus age soberanamente, utilizando até mesmo as imperfeições humanas para realizar Seus desígnios eternos. A obediência e a fé de Abrão são recompensadas com uma clareza ainda maior sobre seu papel na história da salvação.

Abrão, em resposta a esta renovada promessa, edifica um altar ao SENHOR em Hebron (v. 18), gesto que simboliza sua adoração, gratidão e contínua confiança em Deus. Este ato de religião (religio), uma virtude anexa à justiça que nos inclina a dar a Deus o culto que Lhe é devido, sela a relação de Aliança e a submissão de Abrão à vontade divina. Ele compreende que as bênçãos materiais e as promessas futuras estão intrinsecamente ligadas à sua relação com o Criador.

Em suma, Gênesis 13 é um testemunho da necessidade de ordenar os bens temporais segundo a reta razão iluminada pela fé. A prudência e a caridade de Abrão demonstram como as virtudes cardeais e teologais operam em conjunto para guiar o homem para o bem. Contrariamente, a escolha de Ló adverte sobre os perigos de uma visão míope, focada unicamente nos prazeres e vantagens mundanas. Acima de tudo, o capítulo reitera a fidelidade da Providência Divina, que conduz Seus eleitos em direção ao seu fim último, mesmo através das encruzilhadas da vida, manifestando Sua glória naqueles que n'Ele confiam.

Gênesis 12: A Vocação de Abrão e o Início da Aliança Divina


Gênesis 12

1. O SENHOR disse a Abrão: "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.
2. Eu farei de ti uma grande nação, abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome. Sê uma bênção!
3. Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar. Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra".
4. Abrão partiu, como o SENHOR lhe havia dito; Ló foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando partiu de Harã.
5. Abrão tomou consigo Sarai, sua mulher, Ló, filho de seu irmão, todos os bens que haviam acumulado e as pessoas que haviam adquirido em Harã. Partiram para a terra de Canaã e chegaram lá.
6. Abrão atravessou a terra até o lugar de Siquém, até o carvalho de Moré. Os cananeus estavam então na terra.
7. O SENHOR apareceu a Abrão e disse: "À tua descendência darei esta terra". Abrão construiu ali um altar ao SENHOR, que lhe havia aparecido.
8. Dali, ele partiu para a montanha, a leste de Betel, e armou sua tenda, tendo Betel a oeste e Ai a leste. Ali construiu um altar ao SENHOR e invocou o nome do SENHOR.
9. Abrão continuou sua viagem, indo de acampamento em acampamento, rumo ao Neguebe.
10. Houve fome na terra, e Abrão desceu ao Egito para ali residir, pois a fome era grande na terra.
11. Quando estava para entrar no Egito, disse à sua mulher Sarai: "Sei que és uma mulher de bela aparência.
12. Quando os egípcios te virem, dirão: 'É a mulher dele'. E me matarão, mas a ti te deixarão viver.
13. Dize, pois, que és minha irmã, para que eu seja bem tratado por tua causa e por ti me seja poupada a vida".
14. Quando Abrão chegou ao Egito, os egípcios viram que a mulher era muito bela.
15. Os príncipes do Faraó a viram e a louvaram ao Faraó; ela foi levada para o palácio do Faraó.
16. Ele tratou bem a Abrão por causa dela; e Abrão teve ovelhas, bois, jumentos, servos, servas, jumentas e camelos.
17. Mas o SENHOR infligiu grandes pragas ao Faraó e à sua casa, por causa de Sarai, mulher de Abrão.
18. Então o Faraó chamou Abrão e disse: "Que me fizeste? Por que não me informaste que ela era tua mulher?
19. Por que disseste: 'Ela é minha irmã', de modo que a tomei para ser minha mulher? Agora, aqui está tua mulher; toma-a e vai-te!"
20. O Faraó deu ordens a seus homens a respeito dele, e eles o escoltaram, com sua mulher e tudo o que possuía.


Comentário Tomista

O décimo segundo capítulo do Gênesis marca um ponto de inflexão na história da salvação, revelando a Providência Divina em sua ação mais direta sobre a humanidade. Nele, testemunhamos o chamado de Abrão, um evento que, à luz da filosofia e teologia de São Tomás de Aquino, é um paradigma da eleição divina, da fé operosa e da teleologia da salvação.

Primeiramente, a iniciativa divina é crucial. Deus, em sua infinita sabedoria e bondade, chama Abrão não por mérito preexistente, mas por uma graça totalmente gratuita, um ato de sua eterna Providência (cf. Suma Teológica I, q. 22, a. 1-4). Este chamado é uma manifestação da lex aeterna (lei eterna) em ação, o plano divino que ordena todas as coisas para seu fim último. Deus seleciona um indivíduo para servir a um propósito maior, transcendendo a ordem meramente natural. A ordem "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai" não é uma sugestão, mas um mandamento divino que exige uma resposta de fé radical.

A resposta de Abrão é, para Tomás de Aquino, um exemplo sublime de fides (fé) e obedientia (obediência). A fé, virtude teologal infundida por Deus, é o assentimento do intelecto à verdade divina por um ato da vontade movido pela graça (cf. Suma Teológica II-II, q. 2, a. 9). Abrão não questiona, mas simplesmente "partiu, como o SENHOR lhe havia dito". Esta obediência imediata não é cega, mas informada pela caridade (fides caritate formata), pois brota de um amor a Deus que confia plenamente em Sua sabedoria e poder, mesmo diante do desconhecido. Ele renuncia à segurança do conhecido e abraça o incerto, impelido unicamente pela promessa divina. A virtude da obediência, aqui, eleva a vontade humana a cooperar com a vontade divina, demonstrando a reta ordenação do homem ao seu Criador.

As promessas divinas a Abrão – uma grande nação, um nome engrandecido, a bênção para si e para "todas as famílias da terra" – revelam a teleologia do plano divino. O finis ultimus (fim último) do homem é a união com Deus, a beatitude. As promessas terrenas, como a terra e a descendência, são prefigurações e meios para um bem maior, apontando para a plenitude da aliança em Cristo. A particularidade da eleição de Abrão serve a um bonum commune (bem comum) universal: a salvação de toda a humanidade através da sua descendência. Isto mostra que a Providência Divina opera através de particulares para alcançar fins universais, de acordo com uma ordem que excede a compreensão meramente humana.

O percurso de Abrão, uma peregrinação constante, simboliza a condição do homem como viator (peregrino) na terra, buscando sua pátria celeste. Ele constrói altares e invoca o nome do Senhor, evidenciando uma vida de culto e reconhecimento da soberania divina, mesmo em meio às adversidades, como a fome no Egito. A passagem no Egito, onde Abrão teme por sua vida e pede a Sarai que minta, revela a fragilidade da natureza humana mesmo nos grandes homens de fé. Contudo, mesmo nesses momentos de fraqueza, a Providência Divina age para proteger Seus planos e corrigir os desvios, como demonstrado pelas pragas infligidas ao Faraó. Deus não abandona sua promessa, apesar das imperfeições humanas.

Em síntese, Gênesis 12 é um tratado sobre a graça divina, a liberdade humana e a resposta de fé. Abrão, por sua fé e obediência, torna-se o patriarca de uma nova era, o modelo do homem que confia inteiramente em Deus e que, por sua vez, se torna um instrumento da bênção divina para o mundo inteiro, antecipando a plena realização da salvação em Jesus Cristo, a suprema descendência de Abrão, em quem todas as famílias da terra são verdadeiramente abençoadas.

Gênesis 11: A Torre de Babel e a Desordem da Vontade Humana

1 Toda a terra tinha uma só língua e as mesmas palavras.

2 Ao partirem do oriente, acharam uma planície na terra de Sinar e ali se estabeleceram.

3 Disseram uns aos outros: «Vamos fazer tijolos e cozê-los ao fogo.» Usaram tijolos em vez de pedra, e betume em vez de argamassa.

4 Disseram: «Vamos construir uma cidade, e uma torre cujo topo chegue ao céu. Assim faremos um nome para nós, e não seremos dispersos pela face de toda a terra.»

5 Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam construindo.

6 E o Senhor disse: «Eles são um só povo e têm uma só língua; e isso é o que começam a fazer! De agora em diante, nada do que intentarem fazer lhes será impossível.

7 Vamos descer e confundir ali a sua língua, para que um não entenda a língua do outro.»

8 Assim o Senhor os dispersou dali por toda a face da terra, e eles pararam de construir a cidade.

9 Por isso ela foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu a língua de toda a terra, e dali o Senhor os dispersou por toda a face da terra.

10 Esta é a genealogia de Sem: Sem tinha cem anos quando gerou Arfaxad, dois anos depois do dilúvio.

11 E Sem viveu quinhentos anos depois de gerar Arfaxad, e gerou filhos e filhas.

12 Arfaxad viveu trinta e cinco anos e gerou Salá.

13 E Arfaxad viveu quatrocentos e três anos depois de gerar Salá, e gerou filhos e filhas.

14 Salá viveu trinta anos e gerou Héber.

15 E Salá viveu quatrocentos e três anos depois de gerar Héber, e gerou filhos e filhas.

16 Héber viveu trinta e quatro anos e gerou Peleg.

17 E Héber viveu quatrocentos e trinta anos depois de gerar Peleg, e gerou filhos e filhas.

18 Peleg viveu trinta anos e gerou Reú.

19 E Peleg viveu duzentos e nove anos depois de gerar Reú, e gerou filhos e filhas.

20 Reú viveu trinta e dois anos e gerou Serug.

21 E Reú viveu duzentos e sete anos depois de gerar Serug, e gerou filhos e filhas.

22 Serug viveu trinta anos e gerou Naor.

23 E Serug viveu duzentos anos depois de gerar Naor, e gerou filhos e filhas.

24 Naor viveu vinte e nove anos e gerou Terá.

25 E Naor viveu cento e dezenove anos depois de gerar Terá, e gerou filhos e filhas.

26 Terá viveu setenta anos e gerou Abrão, Naor e Harã.

27 Esta é a genealogia de Terá: Terá gerou Abrão, Naor e Harã; e Harã gerou Ló.

28 Harã morreu antes de seu pai Terá, na sua terra natal, Ur dos Caldeus.

29 Abrão e Naor tomaram mulheres para si: o nome da mulher de Abrão era Sarai; e o nome da mulher de Naor era Milca, filha de Harã, pai de Milca e de Jisca.

30 Sarai era estéril; não tinha filhos.

31 Terá tomou seu filho Abrão, seu neto Ló (filho de Harã) e Sarai sua nora (mulher de seu filho Abrão) e partiu com eles de Ur dos Caldeus para ir à terra de Canaã. Mas, chegando a Harã, ali se estabeleceram.

32 Terá viveu duzentos e cinco anos e morreu em Harã.



Comentário Tomista

O décimo primeiro capítulo do Livro do Gênesis nos apresenta o dramático e simbólico episódio da Torre de Babel, uma narrativa que, à luz da filosofia e teologia de Santo Tomás de Aquino, revela profundas verdades sobre a natureza humana, o pecado original e a ordem divina na criação. Após o dilúvio, a humanidade, novamente unida por uma só língua e propósito, decide edificar uma cidade e uma torre "cujo topo chegue ao céu", para "fazer um nome para nós, e não seremos dispersos pela face de toda a terra".

A intenção dos construtores de Babel, embora aparentemente visando à unidade e à segurança, é um exemplo paradigmático de soberba, o pecado raiz, conforme ensina o Doutor Angélico. A busca por "fazer um nome para nós" denota um desejo desordenado de excelência própria (appetitus inordinatus propriae excellentiae), colocando a glória humana acima da glória divina. Para Tomás, a soberba é o início de todo pecado, pois por ela o homem se afasta do fim último que é Deus, buscando seu próprio fim em si mesmo ou nas criaturas de forma inordenada. A construção da torre, neste sentido, não é meramente uma obra de engenharia, mas um símbolo da elevação da vontade humana contra a vontade de Deus, um esforço autônomo para alcançar o céu por meios próprios e para glória própria, em vez de por graça e para a glória do Criador.

A narrativa também expõe uma clara violação da Lei Natural e da ordem estabelecida por Deus. A instrução divina dada a Adão e Eva, e reiterada a Noé, era para que a humanidade se multiplicasse e enchesse a terra (Gn 1,28; 9,1). A intenção dos babelitas de não serem "dispersos pela face de toda a terra" revela uma recusa explícita em cumprir este preceito divino. Esta desobediência não é apenas um ato de rebeldia, mas uma desordem da razão prática, que não consegue discernir o verdadeiro bem para o homem — que é seguir a vontade de Deus e o desígnio de Sua providência. A unidade que buscavam era uma unidade pervertida, pois estava fundada na exaltação de si mesmos, não na caridade e na submissão à lei eterna que governa a criação.

A intervenção divina, ao confundir as línguas e dispersar os povos, não deve ser vista como um ato arbitrário de punição, mas como um ato de justiça e, paradoxalmente, de misericórdia. Ao impedir que os homens prosseguissem em sua empreitada de soberba, Deus os livra de um mal maior – a consolidação de uma sociedade completamente voltada para si mesma e afastada do seu Criador. A confusão das línguas, que fragmenta a comunicação e, consequentemente, a capacidade de cooperação para o mal, é uma medida providencial para reestabelecer uma certa ordem e forçar a dispersão, que era o plano original para o povoamento da terra. É um freio divino à autodestruição moral da humanidade.

Santo Tomás nos lembra que a lei humana é justa na medida em que deriva da Lei Eterna e da Lei Natural. A aspiração dos construtores da Torre de Babel falha nesse sentido, pois sua obra não está em conformidade com a reta razão nem com o fim último do homem. Ao contrário, a dispersão em Babel é a antítese do Pentecostes, onde a confusão de línguas é superada pela graça do Espírito Santo, unindo os homens na diversidade para a verdadeira adoração a Deus. Assim, a Torre de Babel permanece como um lembrete perene da fragilidade da razão humana quando desvinculada da fé e da necessidade de ordenar todas as ações humanas ao verdadeiro Bem Comum e à glória de Deus.

Gênesis 10: A Dispersão das Nações e a Providência Divina

1. Esta é a história das famílias dos filhos de Noé: Sem, Cam e Jafet. Eles tiveram filhos depois do dilúvio.

2. Os filhos de Jafet foram: Gômer, Magog, Madai, Javã, Tubal, Mosoc e Tiras.

3. Os filhos de Gômer: Ascenaz, Rifá e Togormá.

4. Os filhos de Javã: Elisa, Társis, Quitins e Dodanim.

5. Deles descendem os povos do litoral, divididos em seus países, cada um com sua língua, segundo suas famílias e suas nações.

6. Os filhos de Cam: Cuch, Mitzraim, Fut e Canaã.

7. Os filhos de Cuch: Sabá, Hávila, Sabtá, Raamá e Sabtecá. Os filhos de Raamá: Sabá e Dedã.

8. Cuch gerou Nemrod, que foi o primeiro potente sobre a terra.

9. Ele foi um vigoroso caçador diante de Javé. Por isso se diz: "Como Nemrod, vigoroso caçador diante de Javé".

10. Seu reino teve seu início em Babel, Eréc, Acad e Calné, na terra de Senaar.

11. Daí ele partiu para Assur e construiu Nínive, Reobot-Ir, Calá,

12. e Resen, entre Nínive e Calá, a grande cidade.

13. Mitzraim gerou os ludim, os anamim, os laabim, os neftuim,

14. os patruzim, os casluim (dos quais saíram os filisteus) e os caftorim.

15. Canaã gerou Sidon, seu primogênito, e Heth,

16. e o jebuseu, o amorreu, o girgaseu,

17. o heveu, o araceu, o sineu,

18. o arvadita, o zemarita e o hamatita. Depois as famílias dos cananeus se dispersaram.

19. E o território dos cananeus estendia-se de Sidon, em direção a Gerar, até Gaza, e em direção a Sodoma, Gomorra, Admá e Seboim, até Lesa.

20. Estes são os filhos de Cam, segundo suas famílias, suas línguas, em seus países e suas nações.

21. Também Sem, pai de todos os filhos de Éber e irmão mais velho de Jafet, teve filhos.

22. Os filhos de Sem: Elam, Assur, Arpacsad, Lud e Aram.

23. Os filhos de Aram: Us, Hul, Geter e Mas.

24. Arpacsad gerou Selac, e Selac gerou Éber.

25. Éber teve dois filhos: um chamava-se Faleg, porque em seus dias a terra foi dividida; e o nome de seu irmão era Iectã.

26. Iectã gerou Almodad, Salef, Hasarmavet, Iera,

27. Adoram, Uzal, Dicla,

28. Obal, Abimael, Sabá,

29. Ofir, Hávila e Iobab. Todos estes foram filhos de Iectã.

30. Sua habitação ia desde Mesa, em direção a Sefar, montanha do Oriente.

31. Estes são os filhos de Sem, segundo suas famílias, suas línguas, em seus países e suas nações.

32. Estas são as famílias dos filhos de Noé, segundo suas descendências e suas nações. Deles se originaram as nações que se espalharam pela terra depois do dilúvio.


Comentário Tomista

O capítulo 10 do Livro de Gênesis, conhecido como a "Tábua das Nações", apresenta-nos uma genealogia detalhada dos descendentes dos filhos de Noé — Sem, Cam e Jafet — após o Dilúvio. À primeira vista, pode parecer uma mera lista de nomes e lugares, mas sob a lente da filosofia e teologia de São Tomás de Aquino, este texto sagrado revela profundas verdades sobre a providência divina, a unidade da natureza humana e a ordem da criação.

Em primeiro lugar, a própria existência de tal registro detalhado testifica a Lei Eterna (Lex Aeterna), que é a razão da sabedoria divina enquanto diretora de todos os atos e movimentos. Deus, em sua infinita sabedoria, não abandona sua criação ao caos, mesmo após a queda e o juízo do Dilúvio. Pelo contrário, Ele reorganiza e ordena a humanidade, permitindo sua proliferação e dispersão de forma providencial. Esta ordenação manifesta a contínua atuação da razão divina na história, assegurando que o propósito final da criação seja alcançado.

A genealogia sublinha a unidade radical da espécie humana, um princípio fundamental para São Tomás. Embora as nações se dividam por línguas, terras e famílias (Gn 10,5), todas elas emanam de uma única estirpe: a família de Noé. Esta origem comum é crucial para a compreensão da natureza humana como una e universal, dotada da mesma razão e vontade, e criada à imagem e semelhança de Deus. A diversidade das nações não anula esta unidade substancial, mas sim expressa a riqueza da criação divina dentro de uma ordem unificada. A graça, que perfecciona a natureza, pode assim alcançar todos os homens, independentemente de sua etnia ou localização.

A formação de clãs e nações, descrita neste capítulo, reflete a tendência natural do homem à vida social (animal sociale et politicum), como ensinado por Aristóteles e adotado por Aquino. O homem, por ser um ser racional e indigente, necessita da sociedade para atingir sua perfeição e suprir suas necessidades. A organização em nações é uma manifestação da Lei Natural (Lex Naturalis), que impele os homens a buscarem o bem, incluindo o Bem Comum (Bonum Commune). Embora muitas destas nações tenham se desviado do fim último do homem, sua própria existência e organização denotam uma inclinação inscrita na natureza humana pela razão divina.

Neste contexto, a menção de Nimrod (Gn 10,8-10) como "o primeiro potente sobre a terra" e um "vigoroso caçador diante de Javé" é particularmente instrutiva. Nimrod representa a emergência do poder político e do domínio humano, que pode ser tanto ordenado para o bem comum quanto desvirtuado para a tirania e a glória pessoal. A construção de cidades e reinos, embora natural e necessária para a vida social, aponta para a distinção entre a lei humana e a lei divina. A lei humana deve sempre espelhar e estar em conformidade com a lei natural e, em última instância, com a lei eterna, para que as ações dos governantes e dos governados se dirijam à verdadeira felicidade e ao fim último do homem, que é Deus.

Finalmente, a Tábua das Nações é um prefácio à história da salvação. Ela estabelece o vasto palco geográfico e humano sobre o qual a redenção de Deus se desdobraria. De uma destas famílias, a de Sem, viria Abraão e, por meio dele, o povo eleito, Israel, culminando na encarnação de Cristo. Este capítulo, portanto, não é apenas um registro genealógico, mas um testemunho da universalidade do plano salvífico de Deus, que abraça todas as nações da terra. A diversidade das nações, assim, não é um obstáculo, mas um testemunho da grandeza da misericórdia divina, que convida todos os povos a encontrar a sua plenitude em Deus, o fim último de toda a existência.

Gênesis 9: A Aliança de Noé e os Fundamentos da Lei Natural

Versículo 1. E Deus abençoou a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra.

Versículo 2. E seja o vosso pavor e o vosso temor sobre todos os animais da terra, e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar, nas vossas mãos são entregues.

Versículo 3. Tudo o que se move e vive vos servirá de mantimento, como vos dei a erva verde; tudo vos dou agora.

Versículo 4. Contudo, carne com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis.

Versículo 5. E certamente requererei o vosso sangue, o sangue das vossas vidas; da mão de todo animal o requererei, e da mão do homem, da mão do irmão de cada um requererei a vida do homem.

Versículo 6. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus fez o homem.

Versículo 7. E vós, frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e multiplicai-vos nela.

Versículo 8. E falou Deus a Noé e a seus filhos com ele, dizendo:

Versículo 9. Eis que estabeleço o meu pacto convosco e com a vossa descendência depois de vós;

Versículo 10. E com toda a alma vivente, que convosco está, de aves, de gado, e de todo o animal da terra convosco; desde todos os que saíram da arca, até todo o animal da terra.

Versículo 11. E estabelecerei o meu pacto convosco, que não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio, e que não haverá mais dilúvio para destruir a terra.

Versículo 12. E disse Deus: Este é o sinal do pacto que faço entre mim e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações eternas.

Versículo 13. O meu arco tenho posto nas nuvens; este será por sinal do pacto entre mim e a terra.

Versículo 14. E acontecerá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e aparecer o arco nas nuvens,

Versículo 15. Então me lembrarei do meu pacto, que está entre mim e vós, e entre toda a alma vivente de toda a carne; e as águas não se tornarão mais em dilúvio para destruir toda a carne.

Versículo 16. Assim o arco estará nas nuvens, e eu o verei, para me lembrar do pacto eterno entre Deus e toda a alma vivente de toda a carne, que está sobre a terra.

Versículo 17. E disse Deus a Noé: Este é o sinal do pacto que tenho estabelecido entre mim e toda a carne, que está sobre a terra.

Versículo 18. E os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cão e Jafé; e Cão é o pai de Canaã.

Versículo 19. Estes três foram os filhos de Noé; e destes se povoou toda a terra.

Versículo 20. E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha.

Versículo 21. E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda.

Versículo 22. E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez de seu pai, e fê-lo saber a seus dois irmãos, que estavam fora.

Versículo 23. Então Sem e Jafé tomaram uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez de seu pai; e os seus rostos estavam virados, para que não vissem a nudez de seu pai.

Versículo 24. E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera.

Versículo 25. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja a seus irmãos.

Versículo 26. E disse mais: Bendito seja o Senhor Deus de Sem; e seja Canaã seu servo.

Versículo 27. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja Canaã seu servo.

Versículo 28. E viveu Noé depois do dilúvio trezentos e cinquenta anos.

Versículo 29. E foram todos os dias de Noé novecentos e cinquenta anos; e morreu.


Comentário Tomista

O nono capítulo do Gênesis nos apresenta um momento de renovação cósmica e moral após o Dilúvio, marcando o estabelecimento de uma nova aliança entre Deus e a humanidade, personificada em Noé e sua descendência. Sob a ótica de São Tomás de Aquino, este capítulo é um manancial de princípios da lei natural, da providência divina e da ordem moral que governa o homem e o cosmos.

Deus, em Sua infinita bondade e sabedoria, renova a bênção primordial de 'frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra' (v. 1, 7), ecoando o mandato dado a Adão (Gênesis 1,28). Esta ordem não é meramente uma sugestão, mas um preceito primário da lex naturalis, inscrita na própria natureza humana e no propósito de sua existência. A procriação e a conservação da espécie são bens intrínsecos à vida, ordenados pelo Criador, e acessíveis à reta razão. A dignidade do homem, criado à imagem de Deus, confere-lhe domínio sobre as criaturas irracionais (v. 2), uma faculdade que, segundo Tomás, é própria da criatura racional, capaz de ordenar a si e ao mundo inferior, exercendo uma stewardship que reflete a soberania divina.

Uma mudança significativa é a permissão para a ingestão de carne (v. 3), que não existia no estado original. Este é um bem útil, uma concessão à condição pós-diluviana da humanidade, onde a subsistência talvez exigisse maior latitude. Contudo, esta concessão vem acompanhada de uma restrição moral severa: a proibição de comer carne com seu sangue (v. 4). Esta proibição, que antecipa preceitos mosaicos, visa incutir reverência pela vida, simbolizada pelo sangue, e recordar que a vida pertence a Deus.

O cerne da lei natural revelada neste capítulo reside nos versículos 5 e 6, que proíbem o derramamento de sangue humano, ou seja, o assassinato. 'Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus fez o homem.' Esta é uma das mais claras manifestações da lex naturalis, universalmente inteligível e obrigatória. A vida humana é sacrossanta não por si mesma, mas porque o homem é portador da imago Dei, a imagem e semelhança do próprio Deus. Assim, o assassinato não é apenas um crime contra o homem, mas uma afronta direta à dignidade divina. A pena capital prescrita neste contexto (v. 6) reflete a gravidade do pecado e a necessidade de restaurar a ordem da justiça, que é uma virtude cardeal, garantindo o bem comum e a estabilidade da sociedade. Para Tomás, a punição visa à retribuição justa, à correção do malfeitor e à proteção da comunidade.

Deus estabelece então o sinal de Sua aliança: o arco-íris (v. 12-17). Este não é apenas um símbolo de promessa, mas uma manifestação visível da fidelidade divina e da estabilidade da lex aeterna, a Lei Eterna de Deus, que governa todo o universo. O arco-íris recorda à humanidade a providência misericordiosa de Deus, que, apesar da persistência do pecado humano, mantém a ordem da criação e garante a continuidade da vida. É um sinal da veritas divina, da verdade imutável de Deus em Suas promessas.

A narrativa prossegue com a falha de Noé, que se embriaga (v. 20-21). Este episódio revela que a concupiscência e a fragilidade humana persistem mesmo nos justos. A embriaguez é uma falha contra a virtude da temperantia, que modera os prazeres sensíveis segundo a reta razão. O comportamento de Cão, que expõe a nudez de seu pai, é uma manifestação de desrespeito e irreverência, uma falta contra a pietas filial, que é parte da justiça. Em contraste, Sem e Jafé demonstram prudentia e reverentia ao cobrir o pai sem olhar para sua nudez, agindo com a devida honra e decoro.

As profecias de Noé sobre seus filhos (v. 25-27) mostram que as ações humanas têm consequências que se estendem através das gerações, um reflexo da ordem divina de causa e efeito. Embora essas profecias sejam complexas em sua interpretação histórica e moral, elas indicam um juízo divino sobre as virtudes e vícios manifestados, estabelecendo uma hierarquia de bênção e servidão que, em última instância, aponta para a consumação da história da salvação e o governo providencial de Deus.

Em suma, Gênesis 9 é uma catequese fundamental sobre a ordem moral estabelecida por Deus para a humanidade. Ele reafirma os preceitos da lei natural – a dignidade da vida humana, a proibição do assassinato, a necessidade de procriação –, aponta para a providência e fidelidade divinas através da aliança, e, por meio do exemplo de Noé e seus filhos, ilustra a persistência da inclinação ao pecado e a importância das virtudes cardeais na busca da vida ordenada e da aproximação ao Fim Último, que é o próprio Deus.

Gênesis 8: A Renovação da Esperança e a Promessa da Providência Divina

1 Deus, porém, lembrou-se de Noé e de todos os animais selvagens e de todos os animais domésticos que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e as águas baixaram.

2 As fontes do abismo e as comportas do céu se fecharam, e a chuva do céu foi retida.

3 E as águas foram-se retirando pouco a pouco de sobre a terra; e, ao fim de cento e cinquenta dias, as águas tinham diminuído.

4 E a arca parou, no sétimo mês, no dia dezessete do mês, sobre os montes de Ararate.

5 E as águas foram diminuindo progressivamente até o décimo mês; no décimo mês, no primeiro dia do mês, apareceram os cumes dos montes.

6 E aconteceu que, ao cabo de quarenta dias, Noé abriu a janela que fizera na arca

7 e soltou um corvo, o qual, saindo, ia e voltava, até que as águas se secassem de sobre a terra.

8 Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham diminuído de sobre a face da terra.

9 Mas a pomba não achou onde pousar o pé e voltou para ele na arca, porque as águas cobriam ainda a face de toda a terra. E ele estendeu a mão, pegou-a e a recolheu para si na arca.

10 E esperou ainda outros sete dias e de novo soltou a pomba fora da arca.

11 E a pomba voltou a ele à tarde; e eis que trazia no bico uma folha nova de oliveira. Assim Noé soube que as águas tinham diminuído de sobre a terra.

12 Então esperou ainda outros sete dias e soltou a pomba; e esta não voltou mais para ele.

13 E aconteceu que, no ano seiscentos e um de Noé, no primeiro dia do primeiro mês, as águas se secaram de sobre a terra. Então Noé removeu a cobertura da arca e olhou, e eis que a face da terra estava seca.

14 E, no segundo mês, aos vinte e sete dias do mês, a terra estava seca.

15 E Deus falou a Noé, dizendo:

16 "Sai da arca, tu, e tua mulher, e teus filhos, e as mulheres de teus filhos contigo.

17 Todos os animais que estão contigo, de toda carne, tanto aves como gado e todo réptil que rasteja sobre a terra, traze-os contigo; e frutifiquem na terra, e multipliquem-se, e encham a terra."

18 E saiu Noé, e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos com ele.

19 Todos os animais, todos os répteis, e todas as aves, tudo o que se move sobre a terra, segundo as suas famílias, saíram da arca.

20 E Noé edificou um altar ao Senhor; e tomou de todo animal puro e de toda ave pura e ofereceu holocaustos sobre o altar.

21 E o Senhor cheirou o suave aroma, e o Senhor disse no seu coração: "Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, porque a inclinação do coração do homem é má desde a sua juventude; nem tornarei a ferir todo ser vivente, como fiz.

22 Enquanto a terra durar, sementeira e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite, não cessarão."


Comentário Tomista

O oitavo capítulo do Gênesis narra a culminação da grande purificação das águas e o início de uma nova fase na história da criação e da relação entre Deus e a humanidade. À luz da doutrina de Santo Tomás de Aquino, este texto revela profundas verdades sobre a providência divina, a natureza da lei eterna, a gratidão humana e a persistência da graça face à fragilidade do homem.

O capítulo principia com a afirmação solene: "Deus, porém, lembrou-se de Noé" (Gn 8,1). Para o Angélico Doutor, Deus, sendo ato puro e imutável, não esquece nem lembra no sentido humano de reavivar uma memória perdida. A expressão antropomórfica "lembrou-se" denota a atuação contínua e eficaz da Providência Divina (Providência Divina). Significa que Deus, em Sua sabedoria e bondade infinitas, não abandona Sua criação, mas a governa e dirige infalivelmente para os fins que Ele mesmo estabeleceu. A preservação de Noé e dos seres vivos na arca, o recuo gradual das águas e a restauração da terra são testemunhos palpáveis da ordem divina que prevalece sobre o caos, da lei eterna que subjaz a toda a realidade.

A saída da arca é um processo ordenado, pontuado pela paciência de Noé e sua dependência dos sinais da natureza, como o voo do corvo e das pombas. Esta espera ativa, que culmina na instrução divina para "Sai da arca" (Gn 8,16), sublinha a obediência virtuosa de Noé. Ao desembarcar, a primeira ação de Noé é edificar um altar ao Senhor e oferecer holocaustos de animais puros (Gn 8,20). Esta é uma manifestação exemplar da virtude da religião, parte da justiça, que nos inclina a render a Deus o culto e a honra devidos a Ele como primeiro princípio e fim último de todas as coisas (Summa Theologiae, II-II, q. 81). É um ato de profunda gratidão e adoração, um reconhecimento da soberania divina e da salvação recebida pela graça.

A resposta de Deus a este sacrifício é particularmente reveladora: "O Senhor cheirou o suave aroma, e o Senhor disse no seu coração: 'Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, porque a inclinação do coração do homem é má desde a sua juventude; nem tornarei a ferir todo ser vivente, como fiz'" (Gn 8,21). Aqui, Santo Tomás veria a profunda realidade do pecado original e suas consequências. A afirmação divina sobre a inclinação do coração humano ao mal desde a juventude não implica que a natureza humana seja intrinsecamente má em sua essência, mas que, ferida pela queda, perdeu a justiça original e padece da concupiscência (fomes peccati), que a inclina ao pecado (Summa Theologiae, I-II, q. 82-83). Deus reconhece essa fragilidade inerente ao homem caído, mas, em vez de recorrer a uma nova destruição punitiva, escolhe a via da misericórdia e da paciência.

A promessa divina que se segue – a garantia da constância dos ciclos naturais ("Enquanto a terra durar, sementeira e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite, não cessarão" – Gn 8,22) – é uma reafirmação da lei natural e da ordem da criação. Estas leis físicas e temporais são participações da lei eterna na realidade criada, assegurando a estabilidade necessária para a vida e o desenvolvimento da história humana rumo ao seu fim último. É um testemunho da fidelidade de Deus e da Sua intenção de sustentar a criação, oferecendo um palco para que a humanidade, mesmo em sua condição decaída, possa buscar a verdade, praticar a virtude e, finalmente, alcançar a bem-aventurança eterna através da graça.

Gênesis 8, portanto, não é apenas um relato do fim de um dilúvio, mas um prelúdio da contínua providência divina, da necessidade da virtude humana, e da misericórdia que se eleva sobre o juízo, preparando o caminho para uma aliança ainda mais profunda e para a redenção que viria em Cristo. A teleologia divina se manifesta na renovação da esperança, apesar da persistência do mal no coração humano, apontando para um plano de salvação maior e mais duradouro.

Gênesis 7: O Dilúvio como Ato de Justiça e Misericórdia Divina


Gênesis 7:1. Disse o SENHOR a Noé: "Entra tu e toda a tua casa na arca, porque a ti vi justo diante de mim, nesta geração.
Gênesis 7:2. De todo animal puro tomarás sete pares, macho e fêmea; e de todo animal que não é puro, um par, macho e fêmea.
Gênesis 7:3. Também das aves dos céus, sete pares, macho e fêmea, para conservar a semente sobre a face de toda a terra.
Gênesis 7:4. Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e destruirei de sobre a face da terra toda a substância vivente que criei."
Gênesis 7:5. E Noé fez segundo tudo o que o SENHOR lhe ordenara.
Gênesis 7:6. Tinha Noé seiscentos anos de idade, quando as águas do dilúvio vieram sobre a terra.
Gênesis 7:7. E entrou Noé na arca, ele e seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio.
Gênesis 7:8. Dos animais puros e dos animais que não são puros, e das aves, e de tudo o que rasteja sobre a terra,
Gênesis 7:9. Entraram de dois em dois para Noé na arca, macho e fêmea, como Deus ordenara a Noé.
Gênesis 7:10. E aconteceu que, ao fim de sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio.
Gênesis 7:11. No ano seiscentos da vida de Noé, no segundo mês, aos dezessete dias do mês, nesse mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as comportas do céu se abriram.
Gênesis 7:12. E houve chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites.
Gênesis 7:13. Nesse mesmo dia entrou Noé, e Sem, e Cam, e Jafé, os filhos de Noé, como também a mulher de Noé, e as três mulheres de seus filhos com eles na arca;
Gênesis 7:14. Eles, e todo animal conforme a sua espécie, e todo gado conforme a sua espécie, e todo réptil que rasteja sobre a terra conforme a sua espécie, e toda ave conforme a sua espécie, todo pássaro de toda qualidade.
Gênesis 7:15. E entraram para Noé na arca, de dois em dois, de toda a carne em que havia espírito de vida.
Gênesis 7:16. E os que entraram, macho e fêmea de toda a carne, entraram como Deus lhe tinha ordenado; e o SENHOR o fechou por fora.
Gênesis 7:17. E houve dilúvio quarenta dias sobre a terra, e as águas cresceram e levantaram a arca, e ela se elevou da terra.
Gênesis 7:18. E as águas prevaleceram e cresceram muito sobre a terra; e a arca andava sobre as águas.
Gênesis 7:19. E as águas prevaleceram excessivamente sobre a terra; e cobriram todos os altos montes que havia debaixo de todo o céu.
Gênesis 7:20. Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos.
Gênesis 7:21. E pereceu toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado, e de feras, e de todo o réptil que rasteja sobre a terra, e de todo o homem.
Gênesis 7:22. Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu.
Gênesis 7:23. Assim, exterminou toda a substância vivente que havia sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; e foram extintos da terra; e ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca.
Gênesis 7:24. E as águas prevaleceram sobre a terra cento e cinquenta dias.


Comentário Tomista

O sétimo capítulo do livro do Gênesis nos apresenta a consumação do juízo divino sobre a corrupção da humanidade e, simultaneamente, um profundo ato de misericórdia que garante a preservação da vida através de Noé. Sob a ótica tomista, este evento é uma poderosa manifestação da Divina Providência, da justiça de Deus e da importância fundamental da obediência humana à Lei Eterna.

Santo Tomás de Aquino, em sua análise da governação divina, afirma que Deus, enquanto o Sumo Bem e Sabedoria Infinita, ordena todas as coisas para o seu fim próprio através de Sua Providência (Suma Teológica I, q. 22). O Dilúvio, embora para a mente humana possa parecer uma calamidade indiscriminada, é, na verdade, um ato de justiça perfeita de um Deus que não pode compactuar com o mal. A narrativa de Gênesis 6 estabelece o contexto de uma humanidade que se havia corrompido profundamente, violando a Lei Natural inscrita em seus corações e desordenando toda a criação. A vontade humana, dotada de intelecto e liberdade para buscar o bem, desviou-se para a iniquidade, tornando-se escrava do pecado. A justiça divina (justitia), portanto, exigia uma retribuição, uma correção para restaurar a ordem moral e teleológica do universo.

Contudo, a justiça divina é inseparável da Sua misericórdia (misericordia), como Tomás frequentemente ressalta. O Dilúvio não é um aniquilamento total. A escolha de Noé – "porque a ti vi justo diante de mim, nesta geração" (Gn 7:1) – é a manifestação explícita dessa misericórdia e da graça preveniente de Deus. Noé é o homem que, em meio à depravação generalizada, manteve-se fiel à reta razão e à lei divina. Sua justiça, concebida como a virtude que dispõe a dar a cada um o que lhe é devido, incluindo a Deus, o que Lhe é devido pela obediência, é o que o salva. A preservação de Noé, de sua família e de pares de cada espécie animal demonstra que a Providência Divina visa não apenas punir o mal, mas também garantir a continuidade da vida e a renovação da aliança com a criação. Deus permite a destruição para que um novo começo, mais alinhado com Seu desígnio original, possa florescer.

A obediência de Noé é um ponto fulcral. O texto reitera: "E Noé fez segundo tudo o que o SENHOR lhe ordenara" (Gn 7:5, 9, 16). Para Tomás, a virtude da obediência é essencial para a vida virtuosa, sendo uma parte da virtude cardeal da justiça (Suma Teológica II-II, q. 104). A fé de Noé (como se lê em Hebreus 11:7) traduziu-se em uma adesão incondicional à vontade divina, mesmo diante de uma tarefa hercúlea e aparentemente insensata para o senso comum. Ele não questiona, mas age com diligência e precisão. Esta obediência não é cega, mas procede de uma fé profunda na sabedoria e bondade de Deus, demonstrando como a vontade humana, quando iluminada pela graça e submetida à vontade divina, torna-se um instrumento da Providência, capaz de discernir e seguir o verdadeiro bem.

Do ponto de vista teleológico, o Dilúvio é um meio para um fim mais elevado: a purificação da terra e um novo começo para a humanidade. A destruição visa abrir caminho para uma criação renovada, onde os homens possam novamente buscar seu fim último em Deus, o Bonum Summum. A arca, como símbolo de salvação e refúgio em meio ao caos, prefigura a Igreja como o novo instrumento de Deus para a salvação da humanidade. O evento do Dilúvio é, portanto, uma dolorosa, mas necessária, correção que realinha a criação com seu propósito original, lembrando-nos que a bondade de Deus não é permissividade, mas uma ordenação sábia e justa para a bem-aventurança de Suas criaturas.

Em suma, Gênesis 7 é um lembrete vívido da gravidade do pecado e da inarredável justiça divina, mas também da infinita misericórdia e providência de Deus. Ele nos convida a meditar sobre a necessidade imperiosa da obediência à Lei Divina e à Lei Natural, e a confiar plenamente na sabedoria de Deus, mesmo quando Seus desígnios transcendem nossa compreensão imediata. É um apelo perene à metanoia, à conversão e ao retorno à reta ordem querida pelo Criador para que a humanidade possa cumprir sua finalidade última: a união com Deus.