terça-feira, 16 de setembro de 2025

A Ressurreição em Naim: Uma Análise Tomista do Poder de Cristo sobre a Morte e Sua Infinita Compaixão

A cena que o Evangelho de São Lucas (Lc 7,11-17) nos apresenta hoje é de uma dramaticidade pungente: duas multidões se encontram às portas da cidade de Naim. Uma segue o Autor da Vida, Jesus Cristo, em um cortejo de esperança e ensinamentos. A outra acompanha a personificação da dor humana, uma mãe viúva que leva seu filho único à sepultura, um cortejo de desolação e finitude. O encontro desses dois mundos — o da Vida Eterna e o da morte temporal — culmina em um dos milagres mais reveladores da identidade de Nosso Senhor. Através de uma análise tomista, podemos aprofundar a nossa compreensão sobre a ressurreição do filho da viúva de Naim, enxergando nela não apenas um ato de piedade, mas uma profunda lição metafísica sobre a divindade de Cristo, a natureza da compaixão divina e o poder absoluto da Palavra de Deus.

A Compaixão Divina como Causa Motora do Milagre

O texto sagrado nos diz que, ao ver a viúva, "o Senhor sentiu compaixão (ἐσπλαγχνίσθη) para com ela". Para a mentalidade moderna, a compaixão é frequentemente vista como um sentimento passional, uma emoção que nos move. Contudo, na filosofia de Santo Tomás de Aquino, quando atribuímos "paixões" a Deus, devemos fazê-lo por analogia. Deus, como Ato Puro, não possui paixões no sentido de algo que O afete ou mude Seu estado. A compaixão divina, ou misericordia, não é uma emoção passiva, mas sim um ato eficaz da Sua Vontade perfeitamente boa.

Santo Tomás, na Suma Teológica (I, q. 21, a. 3), ensina que a misericórdia é "a tristeza pela miséria alheia". Em Deus, essa "tristeza" não é uma perturbação, mas a vontade ativa e benevolente de afastar a miséria do outro. A miséria, por excelência, é a ausência de um bem devido. A morte, a separação da alma e do corpo, é uma das maiores misérias que a natureza humana, decaída pelo pecado, pode experimentar.

Portanto, a compaixão de Cristo em Naim não é meramente um sentimento humano de pena. É a manifestação visível da Vontade do Deus-Filho que, em Sua natureza humana, sente a dor daquela mulher, e em Sua natureza divina, possui o poder e a vontade de erradicar a causa dessa dor. O milagre, então, não nasce de um impulso, mas flui da própria essência de Deus, que é Bondade e Amor. Ele age não porque é mudado pela miséria da viúva, mas porque, em Sua eterna providência, Ele escolhe manifestar Sua glória e bondade ao remediar aquela miséria específica.

"Jovem, Eu te Ordeno": A Potência da Palavra Divina

O clímax do evento se dá na ordem proferida por Cristo: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te!". Aqui reside uma das provas mais claras de Sua divindade, distinguindo Seus milagres dos realizados pelos profetas do Antigo Testamento. Profetas como Elias (1 Rs 17,17-24) e Eliseu (2 Rs 4,32-37) também ressuscitaram mortos, mas o fizeram como intercessores: eles oraram a Deus, suplicando para que Ele agisse.

Cristo, no entanto, não suplica. Ele ordena. Ele fala com autoridade própria, como quem possui o domínio sobre a vida e a morte. Para Santo Tomás de Aquino, isso demonstra a potentia Dei, o poder de Deus. A palavra de Deus não é como a nossa, que meramente descreve ou solicita. A palavra de Deus é performativa, criadora e eficaz. Como lemos no Gênesis, Deus disse "Faça-se a luz", e a luz foi feita. O Doutor Angélico diria que Dei dicere est Dei facere — o dizer de Deus é o fazer de Deus.

Ao ordenar que o jovem se levante, Cristo age como o próprio Deus, o único que é o Senhor da Vida. A morte é a separação da alma, a forma substancial, do corpo, a matéria. Nenhum ser criado, por si mesmo, tem o poder de reunir essa forma à sua matéria uma vez que a separação tenha ocorrido. Apenas o Criador, a Causa Primeira de todo o ser, que instituiu essa união em primeiro lugar, pode restaurá-la. A ordem de Jesus não é um encantamento mágico; é o comando do Verbo Divino que sustenta toda a criação, reintroduzindo o princípio vital (a alma) no corpo que jazia inerte.

O Milagre e a Ordem da Criação: Uma Visão Metafísica

Um cético poderia ver o milagre como uma "violação" das leis da natureza. Contudo, a perspectiva tomista oferece uma visão mais profunda. As leis da natureza descrevem o modo como as causas segundas (as criaturas) ordinariamente operam. Um milagre, explica Tomás de Aquino, não é uma contradição da natureza, mas um efeito produzido por Deus para além da ordem de toda a natureza criada (praeter ordinem totius naturae creatae).

Deus, como Causa Primeira, não está sujeito à ordem das causas segundas que Ele mesmo instituiu. Ele pode, e o faz em ocasiões especiais por um bem maior, agir diretamente na criação, produzindo um efeito que nenhuma causa natural poderia produzir. A ressurreição de um morto é um milagre desta magnitude. O processo natural da biologia leva à decomposição, não à revivificação. Ao ordenar a volta à vida do jovem, Cristo demonstra que Ele mesmo é o autor e o mestre da ordem natural, não seu prisioneiro. Este evento é uma janela para a realidade metafísica de que todo o universo depende, a cada instante, do poder sustentador de seu Criador. Este poder, que normalmente age através das leis naturais, manifestou-se de forma direta e extraordinária às portas de Naim.

Do Temor à Glorificação: A Resposta Adequada ao Sagrado

A reação da multidão é duplamente significativa: "Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus". O medo aqui não é o pavor covarde, mas o "temor de Deus" bíblico — um assombro reverencial diante da manifestação da majestas Dei, a majestade divina. É o reconhecimento da criatura de que está diante de algo que transcende infinitamente sua compreensão e seu poder. É a mesma reação de Isaías no templo (Is 6,5) ou de Pedro após a pesca milagrosa (Lc 5,8).

Este temor santo é o prelúdio necessário para a adoração autêntica. Ao testemunharem a morte recuar diante de uma simples palavra, as pessoas compreenderam que não estavam diante de um mero curandeiro ou profeta comum. A conclusão deles, "Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo", embora ainda incompleta, aponta na direção certa. Eles perceberam uma intervenção divina direta, uma visitação de Deus em sua história. A glorificação a Deus é, portanto, a consequência lógica e justa do que presenciaram. Eles atribuem o ato ao seu verdadeiro autor: Deus. O que eles ainda precisariam compreender plenamente, ao longo do ministério de Cristo, é que o homem que estava diante deles era, em pessoa, aquele Deus que visitava o seu povo.

Um Sinal da Ressurreição Final

Em suma, o milagre da ressurreição do filho da viúva de Naim é uma catequese densa sobre a identidade de Jesus Cristo. Sob a luz do pensamento tomista, vemos como a compaixão de Cristo é o agir eficaz da Vontade Divina; Sua palavra é o Verbo criador que tem poder sobre a própria morte; e o milagre em si é uma demonstração de Seu senhorio sobre a ordem da criação. Este ato não é apenas a restauração da vida de um jovem para a alegria de sua mãe, mas um sinal poderoso que prefigura a Sua própria Ressurreição — a vitória definitiva sobre a morte — e a promessa da nossa. Diante de nossas próprias "mortes" — nossos pecados, desesperos e aflições — a Palavra de Cristo ressoa ainda hoje com a mesma autoridade e compaixão: "Eu te ordeno, levanta-te!".

domingo, 14 de setembro de 2025

A Exaltação da Santa Cruz e a Serpente no Deserto: A Sabedoria de Santo Tomás de Aquino Revelada

A Santa Igreja, em sua sabedoria milenar, nos convida a celebrar a Festa da Exaltação da Santa Cruz, um momento litúrgico de profunda riqueza teológica e espiritual. Longe de ser um mero lembrete de um instrumento de tortura, esta celebração é um hino à vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, a exaltação do estandarte da nossa salvação. Para mergulhar neste mistério, poucas luzes são tão seguras e penetrantes quanto a do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino. É sob sua guia que podemos desvendar a sublime conexão entre o madeiro da Cruz e uma das mais enigmáticas passagens do Antigo Testamento: a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto.

Para o olhar moderno, a associação entre a Cruz de Cristo e uma serpente pode soar estranha, até mesmo contraditória. Afinal, a serpente é o símbolo da tentação original no Éden, a personificação do engano que levou à Queda. Contudo, é precisamente nesta aparente contradição que a divina pedagogia se revela, e a filosofia realista de Santo Tomás nos ajuda a compreender a ordem e a finalidade por trás destes símbolos. O Aquinate, mestre em analisar as Escrituras à luz da razão e da fé, nos ensina a ver na serpente do deserto não um ídolo, mas uma prefiguração, uma imagem profética que preparou o povo de Israel – e toda a humanidade – para o mistério redentor da Crucificação.

O Veneno do Pecado e o Remédio que se lhe Assemelha

A narrativa, contida no livro dos Números (21, 4-9), é dramática. O povo de Israel, fatigado pela jornada no deserto, murmura contra Deus e contra Moisés. Como consequência de sua impaciência e falta de fé, o Senhor envia serpentes abrasadoras, cujas picadas venenosas levam muitos à morte. Arrependido, o povo clama por salvação. A resposta de Deus é, à primeira vista, paradoxal: Ele não elimina as serpentes, mas ordena a Moisés: “Faze para ti uma serpente abrasadora e põe-na por sinal; e acontecerá que todo aquele que for mordido e olhar para ela viverá”.

Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica (III, q. 25, a. 4), analisa esta passagem com precisão filosófica. Ele explica que era conveniente que Cristo sofresse na Cruz, o instrumento de sua Paixão. Aprofundando a simbologia, ele recorre a este episódio do deserto para ilustrar o princípio da conveniência e da semelhança na obra da Redenção.

O Doutor Angélico argumenta que, assim como o povo foi ferido por serpentes, o remédio veio sob a forma de uma serpente. A serpente de bronze, embora tivesse a forma da serpente, não possuía seu veneno. Era uma imagem inofensiva daquilo que causava a morte. Esta é a chave da analogia tomista: a humanidade estava ferida pelo veneno do pecado, cuja porta de entrada foi a sugestão da serpente no Paraíso. O remédio, portanto, viria por meio de Alguém que assumiria a semelhança do pecador, sem, contudo, ter o veneno do pecado.

Cristo, na Cruz, assume a "forma do pecado". São Paulo, na Segunda Epístola aos Coríntios (5, 21), afirma que Deus "O fez pecado por nós, Aquele que não conheceu pecado". Santo Tomás explica que Cristo não se tornou um pecador, mas assumiu sobre si as penalidades do pecado – a dor, o sofrimento e a própria morte – para curar a nossa natureza decaída. Assim como a serpente de bronze era semelhante às serpentes que matavam, mas era, em si mesma, inofensiva e fonte de cura para quem a olhava com fé, Cristo se fez semelhante a nós em nossa fragilidade mortal, para nos curar da própria morte espiritual.

A Necessidade de "Olhar para Cima": A Fé e a Exaltação

Outro ponto crucial na análise tomista é o ato de "olhar" para a serpente erguida. Não bastava a existência do símbolo; era necessário um ato de fé e obediência por parte do israelita ferido. O remédio não era mágico. Exigia uma resposta humana: levantar os olhos para o sinal estabelecido por Deus.

Este ato de olhar para cima é uma prefiguração da fé em Cristo crucificado. A salvação não nos é imposta de forma mecânica. Requer a nossa conversão, o nosso "olhar" para Aquele que foi "exaltado". O próprio Cristo faz esta conexão de forma explícita no Evangelho de São João (3, 14-15): “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Para Santo Tomás, a "exaltação" da Cruz é dupla. Primeiramente, é uma exaltação física: Cristo é erguido do chão, entre o céu e a terra, como juiz e mediador. Mas, mais importante, é uma exaltação espiritual e gloriosa. O que parecia ser o ápice da humilhação e da derrota – a morte em um madeiro reservado aos piores criminosos – torna-se, na realidade, o trono de Sua realeza, o altar de Seu sacrifício perfeito e a cátedra de Sua mais sublime lição de amor e obediência.

A Cruz, portanto, deixa de ser um símbolo de vergonha para se tornar o estandarte da vitória. Ao ser exaltado nela, Cristo atrai todos a si (João 12, 32), não pela força, mas pela atração irresistível do amor divino manifestado. O olhar de fé para o Crucificado é o que nos cura do veneno do orgulho, da desobediência e do egoísmo, as verdadeiras causas da morte espiritual.

A Sabedoria Divina na Loucura da Cruz

A filosofia tomista, fundamentada na harmonia entre fé e razão, nos permite apreciar a profunda sabedoria divina que se esconde naquilo que o mundo considera "loucura". Para a mentalidade pagã, adorar um Deus crucificado era um escândalo e uma insensatez, como bem notou São Paulo (1 Coríntios 1, 23). No entanto, Santo Tomás nos mostra que a Cruz é a mais alta expressão da lógica e da justiça divinas.

Deus poderia ter salvo a humanidade de inúmeras maneiras. Contudo, Ele escolheu a Paixão e a Cruz por razões de suma conveniência, que manifestam de forma perfeita Seus atributos:

  1. Manifestação do Amor: Na Cruz, vemos a medida do amor de Deus, que não poupou Seu próprio Filho para nos resgatar.

  2. Exemplo de Virtude: Cristo na Cruz nos oferece o exemplo perfeito de obediência, humildade, paciência e caridade.

  3. Satisfação da Justiça: O sacrifício de Cristo oferece a Deus uma reparação superabundante pela ofensa infinita do pecado.

  4. Libertação da Escravidão: Pela Cruz, somos libertados não apenas da culpa, mas também da escravidão ao demônio, que nos mantinha cativos pelo medo da morte.

A serpente de bronze, erguida para curar uma aflição temporal – a morte física pelo veneno –, era uma pálida imagem da Cruz, que nos cura de uma aflição eterna: a morte espiritual e a separação de Deus.

Exaltar a Cruz em Nossas Vidas

Ao celebrar a Exaltação da Santa Cruz, somos convidados, pela inteligência luminosa de Santo Tomás de Aquino, a ir além da superfície. Somos chamados a ver no madeiro sagrado não apenas o sofrimento de Cristo, mas o triunfo de Deus. A conexão com a serpente do deserto nos ensina que o remédio para o nosso mal mais profundo vem de uma forma inesperada, assumindo a aparência de nossa própria fraqueza para nos conferir a força divina.

Exaltar a Cruz hoje significa, portanto, fixar o nosso olhar de fé em Cristo Crucificado, reconhecendo Nele a única fonte de cura para o veneno do pecado que ainda nos aflige. Significa abraçar as nossas próprias cruzes diárias, unindo-as ao sacrifício redentor de Cristo. Por fim, significa proclamar com a vida que, na aparente derrota da Sexta-feira Santa, floresceu a vitória eterna da Ressurreição, e que o estandarte do Rei não é de ouro ou de prata, mas é o madeiro santo no qual a Salvação do mundo foi suspensa.