terça-feira, 29 de julho de 2025

A Divinização do Homem: A Theosis na Perspectiva de Santo Tomás de Aquino


A Divinização do Homem: A Theosis na Perspectiva de Santo Tomás de Aquino

A ideia de que o ser humano pode, de alguma forma, participar da vida divina e se tornar "semelhante a Deus" é uma das doutrinas mais profundas e, por vezes, controversas do cristianismo. Conhecida no Oriente cristão pelo termo grego theosis (θεωσις), ou divinização, essa concepção afirma que o destino final do homem não é apenas a salvação do pecado, mas uma união íntima e transformadora com o próprio Criador.

Mas como um pensador da magnitude de Santo Tomás de Aquino, o pilar da teologia escolástica ocidental, abordou esse conceito? Embora não utilize o termo theosis com a mesma frequência que os Padres da Igreja oriental, o Doutor Angélico desenvolveu uma das mais sofisticadas e cuidadosas visões sobre a união do homem com Deus. Em sua obra, essa jornada de divinização é apresentada como um caminho de graça, participação e, finalmente, a Visão Beatífica.

Neste artigo, exploraremos em profundidade como Santo Tomás de Aquino entende a deificação do homem, uma jornada que começa na Terra e se consuma na glória eterna.

A Graça Santificante: O Início da Divinização na Terra

Para Santo Tomás, a jornada de divinização não é algo que começa apenas após a morte. Ela tem seu início no momento em que a alma recebe a graça santificante. Este não é um mero perdão jurídico dos pecados; é um dom sobrenatural, uma qualidade real e infundida na alma que a eleva e a transforma intrinsecamente.

A graça é, nas palavras de Aquino, uma participatio quaedam naturae divinae – uma certa participação na natureza divina, ecoando a passagem bíblica de 2 Pedro 1:4. Veja como ele a concebe:

  • Uma Nova Natureza: A graça concede à alma uma nova "natureza" sobrenatural, curando as feridas do pecado e orientando o ser humano para seu fim último: Deus.

  • A Semente da Glória: Santo Tomás refere-se à graça como a "semente da glória" (semen gloriae). Isso significa que a vida de união com Deus na eternidade é o florescimento de uma semente que já foi plantada na alma aqui na Terra através do batismo e dos sacramentos. Não são duas vidas distintas, mas um contínuo crescimento.

Portanto, para o tomismo, estar "em estado de graça" já é estar em um estado inicial de deificação. É o começo da participação real na vida trinitária, uma elevação que a natureza humana, por si só, jamais poderia alcançar.

Participação (Participatio): A Chave do Pensamento Tomista

Para compreender a fundo a visão de Aquino, o conceito de participação (participatio) é absolutamente central. Em sua metafísica, tudo o que existe, participa do Ser (esse) que é Deus, o Ipsum Esse Subsistens (o Próprio Ser Subsistente). As criaturas não são Deus, mas "têm" ser por participação.

Ele aplica a mesma lógica à divinização:

A alma humana participa da vida divina pela graça, assim como o ferro em brasa participa das propriedades do fogo. O ferro se torna incandescente, quente e luminoso como o fogo, mas sua natureza continua sendo ferro, não fogo.

Essa analogia é perfeita para ilustrar o pensamento tomista. A união com Deus não destrói nem anula a natureza humana; ela a eleva e a aperfeiçoa ao máximo de sua potencialidade. Nós nos tornamos "deuses por participação", como afirmavam os Padres da Igreja, mas nunca Deus por natureza. A distinção ontológica entre Criador e criatura é sempre mantida de forma clara e inequívoca.

A Visão Beatífica: O Cume da União com Deus

Se a graça é a semente, a Visão Beatífica (Visio Beatifica) é a flor plenamente desabrochada. Este é o fim último para o qual todo ser humano foi criado. Trata-se do estado final dos salvos no céu, onde eles experimentarão a felicidade perfeita e definitiva através de uma união intelectual direta e imediata com a própria Essência Divina.

O que é a Visão Beatífica?

Não se trata de uma "visão" com os olhos físicos, mas de um ato do intelecto. O intelecto humano, cuja natureza é buscar a verdade, só encontra seu repouso final quando conhece a Causa Primeira de todas as coisas: Deus. Na Visão Beatífica, Deus se dá a conhecer à alma sem intermediários, sem imagens ou conceitos. A alma "vê" a essência de Deus, e nesse ato de conhecimento, encontra o amor e a felicidade supremos.

A Consumação da Theosis

Este é o ponto culminante da divinização. Ao conhecer a Deus "face a face", a alma é inundada pela luz e pelo amor divinos de uma forma tão intensa que ela é transformada à Sua semelhança. A participação na natureza divina, iniciada pela graça, atinge sua perfeição máxima. A alma não se dissolve em Deus, mas, mantendo sua identidade pessoal, participa da felicidade e da vida intratrinitária de uma maneira que excede toda a compreensão humana.

A Distinção Crucial: Participação vs. Fusão Metafísica

É vital reforçar um ponto para evitar mal-entendidos panteístas. A theosis tomista não é uma fusão onde a alma humana é absorvida pela divindade, perdendo sua individualidade. Santo Tomás de Aquino defende vigorosamente que a união com Deus aperfeiçoa a criatura, não a aniquila.

A glória de Deus, em sua visão, não está em apagar a criação, mas em elevá-la a um estado de perfeição que ela não poderia atingir por si mesma. A distinção entre a essência de Deus e a essência da alma permanece eternamente. Somos filhos no Filho, participantes por adoção, mas jamais o Deus Único por natureza.

Conclusão: Theosis Tomista, uma Jornada da Graça à Glória

Em suma, embora Santo Tomás de Aquino não use o vocabulário típico da theosis oriental, ele oferece uma das mais robustas e coerentes doutrinas sobre a divinização do homem. Para ele, este não é um conceito vago ou meramente metafórico, mas uma realidade concreta que se desenrola em três estágios claros:

  1. Início na Graça: A alma é elevada pela graça santificante, tornando-se participante da natureza divina aqui na Terra.

  2. Crescimento na Virtude: Através de uma vida de fé, caridade e prática das virtudes, essa participação se aprofunda.

  3. Consumação na Glória: A jornada atinge seu ápice na Visão Beatífica, onde a união com Deus se torna completa, direta e eternamente feliz.

A visão tomista da divinização é, portanto, uma grande afirmação do potencial humano quando elevado pela graça. Ela nos lembra que o propósito da vida cristã vai além do simples cumprimento de regras; é uma real e transformadora jornada de retorno à nossa Fonte e Fim último, uma participação no amor, na verdade e na felicidade do Próprio Deus.

domingo, 22 de junho de 2025

Quaestio de Libertate Loquendi (Questão sobre a Liberdade de Expressão)


Quaestio de Libertate Loquendi

(Questão sobre a Liberdade de Expressão)

Articulus Unicus: Utrum in civitate bene ordinata sit permittenda libera expressio cogitationum, etiam falsarum.

(Artigo Único: Se em uma cidade bem ordenada deve ser permitida a livre expressão dos pensamentos, mesmo os falsos.)

Parece que a livre expressão dos pensamentos, especialmente dos falsos, não deve ser permitida em uma cidade bem ordenada (Videtur quod non).

1. Objecit primum: A lei humana deriva da lei eterna e deve ordenar os homens à virtude. Ora, a virtude suprema do intelecto é o conhecimento da verdade, como ensina o Filósofo [Aristóteles]. Permitir a propagação da falsidade é afastar os homens da virtude e conduzi-los ao vício do erro. Logo, a lei, buscando o bem comum, deve proibir a expressão de falsidades, pois estas são contrárias à retidão da razão e ao bem da alma.

2. Objecit secundum: O bem comum é superior ao bem particular. A paz e a ordem da cidade, que são partes essenciais do bem comum, são perturbadas pela disseminação de doutrinas sediciosas, discursos de ódio e mentiras que corrompem os costumes e a concórdia civil. Assim como o governante tem o dever de proteger os cidadãos de inimigos externos, com maior razão deve protegê-los de inimigos internos que, pela palavra, envenenam o corpo social. Portanto, a expressão de tais conteúdos deve ser reprimida pela autoridade justa.

3. Objecit tertium: A lei humana não proíbe todos os vícios, mas apenas os mais graves, que prejudicam os outros. Ora, a falsidade deliberada, a calúnia e a desinformação causam danos evidentes ao próximo e à comunidade, destruindo a reputação, incitando à violência ou minando a confiança nas instituições. Tais palavras não são meros erros, mas atos pecaminosos com consequências danosas. Logo, o governo tem a obrigação de coibi-los, não podendo tolerar uma liberdade que se torna licença para o mal.

Sed contra (Mas, em contrário), está escrito no Evangelho de Mateus (13,29-30), na parábola do joio e do trigo, que o senhor do campo ordena aos seus servos: "Não o arranqueis [o joio], para que não aconteça que, ao recolher o joio, arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita". O joio representa o erro e o mal, e o trigo, a verdade e o bem. Logo, na cidade terrena, uma certa tolerância com o erro é necessária para não suprimir a verdade.

Respondeo dicendum quod (Respondo dizendo que), a questão da liberdade de expressão deve ser analisada segundo a razão e a prudência, distinguindo o fim último do homem da condição da sociedade política terrena.

O fim último do homem é a união com Deus, que é a própria Verdade. Contudo, a lei humana não tem por fim proibir todos os vícios, dos quais os homens podem se abster pela virtude, mas apenas aqueles que são mais perniciosos para os outros e sem cuja proibição a sociedade humana não poderia se conservar, como o homicídio e o furto.

A razão humana, por sua natureza, busca a verdade através do discurso e da investigação. É próprio da dignidade do homem, criado à imagem de Deus, chegar à verdade não por coerção, mas pelo exercício de seu próprio intelecto. Uma lei que pretendesse suprimir toda e qualquer expressão de falsidade acabaria por sufocar a própria busca pela verdade. Pois, muitas vezes, a verdade se manifesta mais claramente ao ser contrastada com o erro, e a mente se fortalece ao refutar argumentos contrários.

Ademais, o governo humano deve ser exercido com prudência. E a prudência ensina que, ao tentar extirpar um mal menor, não se deve introduzir um mal maior. Tentar suprimir pela força toda palavra falsa ou dissonante exigiria um poder de vigilância tão vasto e intrusivo que se tornaria tirânico. Tal poder poderia facilmente ser abusado para silenciar não apenas o erro, mas também a crítica justa e a verdade inconveniente aos governantes. O remédio seria, assim, pior que a doença, gerando um mal maior para o bem comum – a saber, a servidão e o fim da investigação racional – do que o mal da circulação de algumas falsidades.

Portanto, embora o Estado deva ordenar-se à verdade e possa, com justiça, punir certos abusos da palavra que causam dano direto e grave ao próximo (como a calúnia ou a incitação direta à violência), não lhe compete controlar o pensamento de seus cidadãos ou estabelecer uma única verdade por meio da força. Deve, antes, cultivar a virtude e a educação, para que os próprios cidadãos se tornem capazes de discernir o trigo do joio, a verdade da falsidade. Uma certa medida de liberdade de expressão, mesmo para o erro, é condição necessária para a paz civil e para o florescimento da própria razão na busca pela verdade.

Ad primum: A lei humana, de fato, visa à virtude, mas o faz de modo pedagógico e proporcional à condição humana. Ela não impõe a perfeição, mas conduz gradualmente os homens à virtude, proibindo primeiro os males mais graves. Forçar a aceitação da verdade pela lei seria contrário à natureza da própria virtude, que requer um ato voluntário da razão e da vontade. A alma não é virtuosa se apenas evita o erro por medo da punição.

Ad secundum: O bem comum certamente inclui a paz, mas esta paz não é a paz do silêncio forçado, e sim a "tranquilidade da ordem" que brota da justiça. Uma ordem que suprime a razão e a investigação não é verdadeiramente tranquila, mas opressiva. A proteção contra doutrinas danosas se dá mais eficazmente pela promoção da sã doutrina e pela refutação intelectual do que pela censura, que muitas vezes apenas desperta a curiosidade pelo proibido e torna os homens incapazes de defender a fé e a razão por si mesmos.

Ad tertium: É preciso distinguir. As palavras que constituem uma ação diretamente lesiva, como a perjúrio em um tribunal ou a calúnia que destrói a honra de um inocente, são com justiça passíveis de punição pela lei civil, pois violam a justiça comutativa. Contudo, as expressões de opiniões filosóficas, científicas ou políticas, ainda que errôneas, pertencem a uma ordem distinta. Tentar legislar sobre toda opinião seria exceder a competência da lei humana, que julga os atos exteriores, e não o foro íntimo do intelecto, e acabaria por causar os males maiores da tirania e da estagnação da sabedoria, como já foi dito.