sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Desafio do Evangelho: O Que Jesus Realmente Quis Dizer com "Sede Perfeitos"?

Quem de nós nunca sentiu um peso nos ombros ao ler ou ouvir a famosa passagem do Sermão da Montanha, no Evangelho de Mateus (Mt 5,48): “Sede perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito”? À primeira vista, essa exigência parece não apenas difícil, mas absolutamente inatingível. Como pode um ser humano, falho, frágil e sujeito a tantas fraquezas cotidianas, alcançar o mesmo nível de perfeição do Criador do universo?

A resposta para essa angústia está em compreender que, ao longo dos séculos, nós distorcemos o significado da palavra “perfeição”. A sociedade moderna nos ensinou que ser perfeito é não ter defeitos, não cometer erros, ser uma máquina de eficiência e ter um histórico impecável. É uma visão fria, estética e quase matemática.

No entanto, quando olhamos para a Tradição da Igreja, para os textos originais e para a sabedoria de gigantes como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, descobrimos que o chamado de Jesus não é para sermos robôs infalíveis. O chamado à perfeição é, na verdade, um chamado radical à maturidade do amor.

Neste artigo, vamos mergulhar no verdadeiro significado desse mandamento e entender como a perfeição cristã é uma jornada de transformação interior.

A Armadilha da Tradução: O Que é o Teleios Grego?

Para entender o coração do Evangelho, precisamos voltar ao idioma em que ele foi escrito. A palavra grega usada por Mateus para “perfeito” é teleios. Na filosofia e na mentalidade da época, teleios não significava a ausência de erros, mas sim algo que atingiu a sua finalidade, algo que se tornou inteiro, completo e maduro.

Pense em uma semente de maçã. A “perfeição” da semente não é ficar guardada e polida em uma gaveta; a perfeição da semente é morrer na terra, crescer, virar uma árvore e dar frutos. Ela se torna teleios quando cumpre o propósito para o qual foi criada. E qual é o propósito para o qual o ser humano foi criado? O amor.

No contexto exato de Mateus 5, Jesus está falando sobre a forma como amamos. Ele constata que o amor humano natural é incompleto e fracionado: nós amamos nossos amigos e odiamos nossos inimigos. Esse amor é “imperfeito” porque é imaturo e condicional. O amor de Deus, por outro lado, é “perfeito” porque é total, incondicional e alcança a todos — Ele faz o sol nascer sobre os maus e os bons, e a chuva cair sobre os justos e os injustos.

Portanto, quando Jesus diz “Sede perfeitos”, Ele está nos convidando a amar de forma completa, sem barreiras, superando a lógica do “olho por olho”. O Evangelho de Lucas (Lc 6,36) capta a mesma essência com palavras diferentes, tornando o sentido cristalino: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”. A perfeição de Deus é a Sua misericórdia.


A Revolução do Amor Segundo os Padres da Igreja

Nos primeiros séculos do Cristianismo, os chamados Padres da Igreja (a Patrística) tiveram a missão de explicar esse conceito revolucionário para uma sociedade greco-romana que valorizava a força, o poder e a vingança.

Para santos como São João Crisóstomo e São Jerônimo, a marca registrada do cristão “perfeito” não era a capacidade de jejuar por dias a fio sem sentir fome ou nunca ter um pensamento de raiva. A marca do cristão perfeito era a imitação da bondade infinita de Deus diante da injustiça.

Eles ensinavam que a Antiga Lei (a Lei de Talião) era um freio para a maldade humana, limitando a vingança a uma proporção justa. Mas Jesus veio elevar a nossa natureza. Os Padres da Igreja destacavam que o ápice da perfeição humana é alcançado no momento em que somos capazes de perdoar uma ofensa e, mais ainda, rezar por aquele que nos persegue. Ao fazer isso, o cristão rompe o ciclo de ódio que aprisiona a humanidade e se torna, verdadeiramente, uma imagem viva e pulsante do Pai celeste na Terra.


Santo Agostinho: A Caridade como Medida da Alma

Avançando um pouco mais na história, encontramos Santo Agostinho, um dos maiores gênios do Cristianismo. Ele focou intensamente na interioridade do ser humano. Para Agostinho, a perfeição está umbilicalmente ligada a uma única virtude: a caridade (o amor a Deus e ao próximo).

Agostinho nos ensina uma regra simples e profunda: a perfeição de uma pessoa se mede pelo tamanho da sua caridade. Não se mede pelos milagres que ela faz, nem pela quantidade de teologia que ela sabe, mas pela sua capacidade de amar. Quanto mais espaço o amor ocupa no seu coração, mais perfeito você é.

Ele também explicou que o amor tem graus, como se fosse uma escada. No primeiro degrau, aprendemos a amar aqueles que nos fazem o bem. É um amor lícito, mas ainda inicial. O cume dessa escada, o grau supremo de perfeição que um ser humano pode atingir nesta vida, é o amor aos inimigos. Por que? Porque esse é o amor mais desinteressado de todos. Quando você ama alguém que o odeia, você não espera nada em troca. Você ama puramente pelo desejo do bem do outro, assemelhando-se perfeitamente a Jesus Cristo na Cruz, que perdoou seus algozes.

Além disso, Agostinho traz um imenso consolo para a nossa fraqueza: a perfeição nesta vida não é um estado estático de impecabilidade. É um caminho. Ele dizia que faz parte da perfeição do cristão reconhecer humildemente que ainda é imperfeito e que precisa da graça de Deus todos os dias. O “perfeito” é aquele que nunca para de caminhar e de se deixar curar pelo Médico Divino.


Santo Tomás de Aquino: A Ciência do Amor e os Graus de Perfeição

Se Santo Agostinho nos deu a alma desse entendimento, Santo Tomás de Aquino, na sua monumental Suma Teológica, organizou essa doutrina com uma clareza cirúrgica, explicando como a perfeição funciona na prática da vida cristã.

Para Tomás de Aquino, a essência da perfeição é a união com Deus. E, como Deus é Amor, o que nos une a Ele é a caridade. Logo, a perfeição consiste, essencial e principalmente, na caridade.

No entanto, Santo Tomás faz uma distinção brilhante e libertadora que nos ajuda a não cair no desespero. Ele divide a perfeição em duas categorias:

  1. Perfeição Absoluta: É amar a Deus com toda a capacidade possível, sem qualquer distração, interrupção ou falha. Esse nível de perfeição é impossível para nós enquanto estivermos neste mundo. Ele pertence apenas a Deus (por natureza) e aos santos no céu (por graça), que já veem a Deus face a face.

  2. Perfeição do Caminhante (Relativa): É a perfeição possível para nós, viandantes, que ainda caminhamos nesta vida. Ela consiste em remover do nosso coração tudo aquilo que é diretamente contrário a Deus (o pecado grave) e lutar para remover aquilo que, mesmo não sendo pecado, atrapalha a nossa dedicação a Ele e aos irmãos.

Santo Tomás também explica a diferença entre os preceitos e os conselhos. O mandamento do amor (amar a Deus e ao próximo) é um preceito, ou seja, é uma obrigação para todos os cristãos, seja você um monge de clausura ou um pai de família trabalhando em um escritório. Todos são chamados à perfeição da caridade.

Já os chamados “conselhos evangélicos” (como a pobreza voluntária, a castidade celibatária e a obediência) são apenas instrumentos. Eles não são a perfeição em si, mas são ferramentas poderosas que ajudam a viver a caridade de forma mais livre e desembaraçada, removendo as amarras materiais, os apegos afetivos exclusivos e o orgulho próprio.


Um Coração Dilatado

O chamado de Jesus em Mateus 5,48, portanto, não é uma condenação à nossa fragilidade, mas um convite à grandeza. Ser perfeito não é sobre nunca tropeçar; é sobre o que você faz com o seu coração depois que tropeça.

A perfeição cristã é ter um coração tão dilatado pelo Espírito Santo que o amor não encontra mais limites geográficos, sociais ou emocionais. É passar pela vida crescendo na caridade, aprendendo a olhar para o outro — até mesmo para aquele que nos feriu — com os mesmos olhos de misericórdia com que Deus olha para nós.

Na próxima vez que você ouvir “Sede perfeitos”, não pense em um boletim sem notas vermelhas. Pense na cruz de Cristo. Pense em um amor maduro, inteiro e transbordante. É para essa aventura de misericórdia que fomos criados.

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