sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Da Biologia à Alma: Por que Homens e Mulheres são Essencialmente "Um" Segundo Tomás de Aquino

 

A Unidade Oculta na Diversidade Humana

A história do pensamento humano é marcada por uma busca incessante para entender as diferenças físicas entre homens e mulheres e, ao mesmo tempo, reconciliar essas diferenças com uma intuição espiritual profunda: a de que, no fundo, somos todos iguais. Essa jornada ganha contornos fascinantes quando cruzamos a filosofia medieval de São Tomás de Aquino com as descobertas da embriologia moderna. Longe de serem visões excludentes, a biologia de hoje e a teologia tomista apontam, cada uma à sua maneira, para uma mesma verdade: a nossa unidade essencial. Entender como a matéria e a forma se unem para compor o ser humano é o segredo para decifrar por que somos, em última análise, “um” perante o Criador e a razão.


A Unidade Física: A Mesma “Matéria-Prima” e a Potencialidade Biológica

Na Idade Média, Tomás de Aquino baseava seu conhecimento científico na biologia de Aristóteles, o que era o estado da arte na época. Nessa visão antiga, acreditava-se que o sêmen masculino carregava o projeto ideal de um ser humano e que a mulher surgia quando alguma condição externa alterava esse processo. Embora o termo mas occasionatus (um macho “acidental”) soe pejorativo aos ouvidos modernos, para Aquino, ele servia para explicar a diversidade dentro de uma teleologia natural.

Entretanto, a embriologia moderna veio corroborar a intuição de unidade de Aquino, corrigindo apenas o mecanismo. Hoje sabemos que, nas primeiras semanas de gestação, não há diferença física externa entre os sexos. Todos os embriões possuem a mesma estrutura básica, o mesmo tecido genital original.

Fisicamente, não somos espécies diferentes; somos variações perfeitas de uma mesma planta de construção biológica. O que o Doutor Angélico chamaria de “matéria” (o corpo) demonstra uma plasticidade incrível. Viemos do mesmo molde, o que reforça que a diferença sexual não é uma divisão de naturezas, mas uma distinção funcional dentro da mesma espécie.

A Unidade da Alma: A Verdadeira Igualdade Tomista e o Intelecto

Se a ciência atual prova a nossa unidade na origem física, Tomás de Aquino já provava a nossa igualdade na origem espiritual há oito séculos. É aqui que o brilhantismo do Doutor Angélico se destaca e silencia qualquer tentativa de usar a religião para diminuir a dignidade feminina.

Mesmo aceitando a biologia limitada do seu tempo, Tomás ergueu um muro metafísico intransponível: a diferença entre os sexos não afeta a alma. Na Suma Teológica, ele é claro ao afirmar que a imagem de Deus (a Imago Dei) reside na mente e na vontade, faculdades que não possuem gênero.

  1. A Alma Racional: Não existem “almas masculinas” e “almas femininas” em essência. A alma é a forma do corpo (forma corporis).

  2. Igualdade de Graça: A capacidade de receber a graça santificante e os dons do Espírito Santo é idêntica para ambos.

  3. Destino Final: O fim último do homem — a Visão Beatífica — é oferecido igualmente a todos os seres racionais.

Hilemorfismo: A União Indissociável entre Corpo e Espírito

Para o tomismo, o ser humano é uma unidade hilemórfica (matéria + forma). Isso significa que não somos apenas uma alma “dirigindo” um corpo. Somos um composto. Quando dizemos que somos “um”, estamos afirmando que a dignidade da pessoa humana não está fragmentada.

Ao contrário das heresias gnósticas que desprezavam o corpo, Tomás de Aquino valoriza a biologia como o receptáculo necessário para a alma. Se a biologia moderna mostra que o “clitóris e o pênis são órgãos homólogos” (vêm da mesma origem), a teologia tomista nos diz que essa harmonia física é o reflexo da harmonia espiritual. Deus não faz erros; Ele cria complementariedade para a perfeição do universo.

O Papel da Mulher na Criação: Vontade Ativa de Deus

É comum encontrar interpretações errôneas que sugerem que a mulher seria um “erro” biológico na visão medieval. Tomás de Aquino refuta isso categoricamente. Ele argumenta que, embora individualmente o nascimento de uma mulher pudesse ser visto (pela biologia da época) como uma variação do “ideal masculino”, sob a perspectiva da Providência Divina, a mulher é absolutamente necessária e desejada.

Sem a mulher, a humanidade não estaria completa. Ela não é um “plano B”, mas uma vontade ativa e amorosa do Criador. A diversidade dos sexos serve para a continuidade da vida e para a expressão plena do amor humano, que é uma sombra do amor divino.

Sermos “Um” é o Nosso Destino

Sermos todos “um” não significa anular as nossas diferenças físicas ou biológicas, que são reais, belas e complementares. Significa reconhecer que essas diferenças são superficiais diante da nossa essência ontológica.

Segundo Tomás de Aquino, somos “um” porque compartilhamos a mesmíssima natureza humana. Somos “um” porque fomos dotados da mesma alma racional e imortal. E, no fim das contas, somos “um” porque o destino de ambos é o mesmo: a participação na vida do próprio Deus. As diferenças físicas que tanto intrigaram os filósofos antigos e que hoje entendemos com clareza pela ciência são apenas os instrumentos temporais através dos quais a mesma essência humana caminha pela história.

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