terça-feira, 29 de julho de 2025

Carla Zambelli Presa? Uma Análise Tomista Sobre a Justiça, a Perseguição e a Salvação da Alma em Tempos de Crise

 

Nos últimos dias, os motores de busca e as redes sociais foram tomados por uma avalanche de pesquisas e notícias com um tema central: Carla Zambelli presa. A possibilidade da detenção de uma deputada federal, seja na Itália por alegações do deputado Angelo Bonelli ou em solo nacional, acende um estopim em um cenário político já conflagrado. Contudo, para além da veracidade factual do evento, que muitas vezes se perde na névoa da desinformação, a situação nos convida a uma reflexão mais profunda, a uma análise que transcenda o partidarismo e mergulhe nas raízes do que entendemos por justiça, poder e, em última instância, o propósito do homem na sociedade. Sob a luz da filosofia de São Tomás de Aquino, podemos desvelar as camadas deste complexo momento, não para defender uma facção, mas para buscar a verdade que orienta o bem comum e a salvação das almas.

A Justiça Divina e a Justiça dos Homens: Uma Perspectiva Tomista

Para São Tomás de Aquino, a justiça é "a constante e perpétua vontade de dar a cada um o que lhe é devido" (Summa Theologiae, II-II, q. 58, a. 1). Esta definição, herdada do direito romano, ganha no tomismo uma dimensão transcendente. A justiça dos homens, expressa nas leis positivas, só é verdadeiramente justa quando está em conformidade com a Lei Natural, que por sua vez é uma participação da Lei Eterna, que reside na própria mente de Deus.

Quando o poder judiciário, encarnado em figuras como o ministro Alexandre de Moraes, age de forma que gera na população uma percepção generalizada de parcialidade ou de excesso, o que está em jogo não é apenas a biografia de um político. O que se corrói é a própria fundação da Justiça como virtude social. Uma decisão pode ser legal, no sentido de seguir os ritos processuais, mas ser profundamente injusta se for desproporcional, se visar a aniquilação de um adversário em vez da restauração da ordem, ou se aplicar pesos e medidas diferentes para situações análogas. A crise que vivemos, exemplificada pela celeuma em torno da deputada Carla Zambelli, é uma crise de confiança na capacidade do sistema de "dar a cada um o que lhe é devido".

O Bem Comum Ameaçado pela Percepção de Perseguição

O conceito de Bem Comum é central no pensamento político tomista. Ele não é a soma dos bens individuais, mas o conjunto de condições sociais que permitem aos indivíduos e às famílias alcançarem mais plena e facilmente a sua própria perfeição, inclusive a espiritual. A paz, a segurança jurídica e a concórdia social são componentes essenciais do Bem Comum.

Ações judiciais que são percebidas como uma "caça às bruxas" ou uma "perseguição política" — independentemente de sua motivação real — são veneno para o Bem Comum. Elas geram medo, incerteza e ressentimento. Fomentam a divisão e minam a confiança nas instituições, que deveriam ser as guardiãs da ordem social. Do ponto de vista da fé, um clima de perseguição e instabilidade política é um obstáculo à evangelização e à vida virtuosa, pois as paixões políticas inflamadas desviam o foco do homem de seu fim último: Deus. A preocupação com a "prisão de Zambelli", as acusações de Joice Hasselmann ou as manobras da Interpol se tornam o centro da vida de muitos, obscurecendo a busca pela santidade.

A Virtude da Prudência e o Exercício do Poder

Se a justiça é o objetivo, a prudência é a virtude que guia o caminho. Para São Tomás, a prudência é a "reta razão no agir" (recta ratio agibilium), a capacidade de discernir o verdadeiro bem em cada circunstância e de escolher os meios adequados para realizá-lo. Um juiz, especialmente de uma suprema corte, não pode ser apenas um aplicador mecânico da lei; ele precisa ser eminentemente prudente.

Suas decisões devem considerar não apenas o caso concreto, mas as repercussões de seus atos para toda a sociedade. Ações que, mesmo sob o manto da legalidade, incendeiam ainda mais o país, aprofundam a polarização e são vistas como arbitrárias, falham no teste da prudência. Elas podem até atingir um objetivo legal imediato, mas a um custo altíssimo para o Bem Comum e para a estabilidade do Estado de Direito. A questão que um tomista se faz é: as recentes decisões do judiciário brasileiro têm sido prudentes? Elas promovem a paz ou a discórdia?

A Resposta Cristã: Oração, Verdade e a Salvação da Alma

Diante de um cenário tão conturbado, onde nomes como Carla Zambelli e Alexandre de Moraes se tornam símbolos de uma batalha campal, a perspectiva católica nos chama a uma postura radicalmente diferente daquela do mundo. A primeira resposta não é o ataque, mas a oração. São Paulo nos exorta a orar "pelos reis e por todos os que estão em autoridade, para que possamos viver uma vida tranquila e serena, em toda a piedade e honestidade" (1 Timóteo 2:2). Devemos rezar pela conversão e iluminação de todos os envolvidos: dos juízes, para que ajam com justiça e prudência; dos políticos, para que busquem o verdadeiro Bem Comum; e do povo, para que não se deixe levar pelo ódio.

A nossa luta, como ensina a fé, não é primariamente política. O verdadeiro inimigo é o pecado, e a verdadeira perseguição é aquela que tenta afastar a alma de Deus. A preocupação central da Igreja não é se a "direita" ou a "esquerda" vence, mas se as almas se salvam. E um ambiente de injustiça, mentira e ódio é um campo fértil para a perdição. A relação entre Fé e Política deve ser sempre ordenada para este fim último.

Conclusão: Para Além da Notícia, a Busca pela Ordem

A questão "Carla Zambelli foi presa?" pode dominar as manchetes e os debates acalorados. Para um observador com a mente informada pelo tomismo, no entanto, esta é apenas a superfície de uma crise mais profunda. A verdadeira crise é a do abandono dos princípios de uma justiça fundamentada na verdade, de um poder exercido com prudência e de uma sociedade orientada para o Bem Comum.

Enquanto a justiça dos homens vacila e se torna palco de paixões políticas, cabe a nós elevar o olhar para a Justiça Divina, que não falha. Cabe-nos clamar não pela vitória de nosso "lado", mas pela restauração de uma ordem social justa, que permita a cada pessoa buscar livremente seu verdadeiro fim. Que as tribulações do presente nos sirvam não como motivo para o desespero e o ódio, mas como um chamado à oração, à penitência e a um engajamento mais profundo na construção de uma sociedade que reflita, ainda que palidamente, a ordem e a justiça do Reino de Deus.

A Divinização do Homem: A Theosis na Perspectiva de Santo Tomás de Aquino


A Divinização do Homem: A Theosis na Perspectiva de Santo Tomás de Aquino

A ideia de que o ser humano pode, de alguma forma, participar da vida divina e se tornar "semelhante a Deus" é uma das doutrinas mais profundas e, por vezes, controversas do cristianismo. Conhecida no Oriente cristão pelo termo grego theosis (θεωσις), ou divinização, essa concepção afirma que o destino final do homem não é apenas a salvação do pecado, mas uma união íntima e transformadora com o próprio Criador.

Mas como um pensador da magnitude de Santo Tomás de Aquino, o pilar da teologia escolástica ocidental, abordou esse conceito? Embora não utilize o termo theosis com a mesma frequência que os Padres da Igreja oriental, o Doutor Angélico desenvolveu uma das mais sofisticadas e cuidadosas visões sobre a união do homem com Deus. Em sua obra, essa jornada de divinização é apresentada como um caminho de graça, participação e, finalmente, a Visão Beatífica.

Neste artigo, exploraremos em profundidade como Santo Tomás de Aquino entende a deificação do homem, uma jornada que começa na Terra e se consuma na glória eterna.

A Graça Santificante: O Início da Divinização na Terra

Para Santo Tomás, a jornada de divinização não é algo que começa apenas após a morte. Ela tem seu início no momento em que a alma recebe a graça santificante. Este não é um mero perdão jurídico dos pecados; é um dom sobrenatural, uma qualidade real e infundida na alma que a eleva e a transforma intrinsecamente.

A graça é, nas palavras de Aquino, uma participatio quaedam naturae divinae – uma certa participação na natureza divina, ecoando a passagem bíblica de 2 Pedro 1:4. Veja como ele a concebe:

  • Uma Nova Natureza: A graça concede à alma uma nova "natureza" sobrenatural, curando as feridas do pecado e orientando o ser humano para seu fim último: Deus.

  • A Semente da Glória: Santo Tomás refere-se à graça como a "semente da glória" (semen gloriae). Isso significa que a vida de união com Deus na eternidade é o florescimento de uma semente que já foi plantada na alma aqui na Terra através do batismo e dos sacramentos. Não são duas vidas distintas, mas um contínuo crescimento.

Portanto, para o tomismo, estar "em estado de graça" já é estar em um estado inicial de deificação. É o começo da participação real na vida trinitária, uma elevação que a natureza humana, por si só, jamais poderia alcançar.

Participação (Participatio): A Chave do Pensamento Tomista

Para compreender a fundo a visão de Aquino, o conceito de participação (participatio) é absolutamente central. Em sua metafísica, tudo o que existe, participa do Ser (esse) que é Deus, o Ipsum Esse Subsistens (o Próprio Ser Subsistente). As criaturas não são Deus, mas "têm" ser por participação.

Ele aplica a mesma lógica à divinização:

A alma humana participa da vida divina pela graça, assim como o ferro em brasa participa das propriedades do fogo. O ferro se torna incandescente, quente e luminoso como o fogo, mas sua natureza continua sendo ferro, não fogo.

Essa analogia é perfeita para ilustrar o pensamento tomista. A união com Deus não destrói nem anula a natureza humana; ela a eleva e a aperfeiçoa ao máximo de sua potencialidade. Nós nos tornamos "deuses por participação", como afirmavam os Padres da Igreja, mas nunca Deus por natureza. A distinção ontológica entre Criador e criatura é sempre mantida de forma clara e inequívoca.

A Visão Beatífica: O Cume da União com Deus

Se a graça é a semente, a Visão Beatífica (Visio Beatifica) é a flor plenamente desabrochada. Este é o fim último para o qual todo ser humano foi criado. Trata-se do estado final dos salvos no céu, onde eles experimentarão a felicidade perfeita e definitiva através de uma união intelectual direta e imediata com a própria Essência Divina.

O que é a Visão Beatífica?

Não se trata de uma "visão" com os olhos físicos, mas de um ato do intelecto. O intelecto humano, cuja natureza é buscar a verdade, só encontra seu repouso final quando conhece a Causa Primeira de todas as coisas: Deus. Na Visão Beatífica, Deus se dá a conhecer à alma sem intermediários, sem imagens ou conceitos. A alma "vê" a essência de Deus, e nesse ato de conhecimento, encontra o amor e a felicidade supremos.

A Consumação da Theosis

Este é o ponto culminante da divinização. Ao conhecer a Deus "face a face", a alma é inundada pela luz e pelo amor divinos de uma forma tão intensa que ela é transformada à Sua semelhança. A participação na natureza divina, iniciada pela graça, atinge sua perfeição máxima. A alma não se dissolve em Deus, mas, mantendo sua identidade pessoal, participa da felicidade e da vida intratrinitária de uma maneira que excede toda a compreensão humana.

A Distinção Crucial: Participação vs. Fusão Metafísica

É vital reforçar um ponto para evitar mal-entendidos panteístas. A theosis tomista não é uma fusão onde a alma humana é absorvida pela divindade, perdendo sua individualidade. Santo Tomás de Aquino defende vigorosamente que a união com Deus aperfeiçoa a criatura, não a aniquila.

A glória de Deus, em sua visão, não está em apagar a criação, mas em elevá-la a um estado de perfeição que ela não poderia atingir por si mesma. A distinção entre a essência de Deus e a essência da alma permanece eternamente. Somos filhos no Filho, participantes por adoção, mas jamais o Deus Único por natureza.

Conclusão: Theosis Tomista, uma Jornada da Graça à Glória

Em suma, embora Santo Tomás de Aquino não use o vocabulário típico da theosis oriental, ele oferece uma das mais robustas e coerentes doutrinas sobre a divinização do homem. Para ele, este não é um conceito vago ou meramente metafórico, mas uma realidade concreta que se desenrola em três estágios claros:

  1. Início na Graça: A alma é elevada pela graça santificante, tornando-se participante da natureza divina aqui na Terra.

  2. Crescimento na Virtude: Através de uma vida de fé, caridade e prática das virtudes, essa participação se aprofunda.

  3. Consumação na Glória: A jornada atinge seu ápice na Visão Beatífica, onde a união com Deus se torna completa, direta e eternamente feliz.

A visão tomista da divinização é, portanto, uma grande afirmação do potencial humano quando elevado pela graça. Ela nos lembra que o propósito da vida cristã vai além do simples cumprimento de regras; é uma real e transformadora jornada de retorno à nossa Fonte e Fim último, uma participação no amor, na verdade e na felicidade do Próprio Deus.