sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O que Santo Tomás de Aquino Diria sobre o Estudo da USP? Uma Análise sobre Gula, Temperança e a Busca por uma Vida Longa e Virtuosa

 

Um recente estudo da Universidade de São Paulo (USP) trouxe para o debate popular algo que os grandes filósofos medievais já discutiam em profundidade: a relação entre nossas escolhas diárias, nossa saúde e o propósito de nossa existência. A pesquisa, que quantificou em minutos o impacto dos alimentos na longevidade, serve como uma ponte inesperada entre a ciência moderna e a sabedoria atemporal de Santo Tomás de Aquino.

Mas o que o "Doutor Angélico" diria sobre biscoitos recheados que "roubam" minutos de vida e peixes que os "acrescentam"? A resposta reside em duas virtudes fundamentais: a temperança e a luta contra a gula.

A Temperança: A Virtude da Moderação Racional

Para Santo Tomás, a temperança é uma das quatro virtudes cardeais. Ela não significa simplesmente a privação, mas sim a moderação dos apetites e paixões segundo a medida da razão. É a capacidade de desfrutar dos prazeres da vida — como a comida — de forma ordenada, sem se deixar escravizar por eles.

  • O Estudo da USP como Espelho: Os resultados do estudo podem ser vistos como um reflexo prático dessa virtude. Alimentos que adicionam "minutos de vida", como peixes, feijão e frutas, são geralmente aqueles que a natureza nos oferece de forma mais direta. Seu consumo reflete um apetite ordenado, que busca no alimento a nutrição e a saúde, e não apenas o prazer imediato.

A temperança, na visão tomista, é o que nos permite governar a nós mesmos, colocando a razão no comando dos nossos desejos.

A Gula: Mais do que Apenas Comer Demais

Do outro lado da balança, encontramos o vício da gula. É um erro comum pensar na gula apenas como o ato de comer em excesso. Para Santo Tomás, a gula é um pecado capital porque representa um apego desordenado ao prazer proporcionado pela comida e pela bebida.

Essa desordem pode se manifestar de várias formas:

  1. Comer antes da hora certa.

  2. Buscar iguarias excessivamente caras ou refinadas.

  3. Comer em demasia.

  4. Comer de forma ávida ou voraz.

  5. Comer com demasiada delicadeza ou esmero.

O estudo da USP aponta que os alimentos mais prejudiciais, como os biscoitos recheados e ultraprocessados, são precisamente aqueles criados pela indústria para maximizar o prazer imediato (sabor, crocância, doçura) em detrimento do valor nutricional. Consumi-los habitualmente não é apenas uma "má escolha dietética", mas, sob a ótica tomista, um exercício de gula, onde o prazer desordenado se sobrepõe à razão que busca a saúde do corpo.

O Corpo como Instrumento para uma Vida Virtuosa

Santo Tomás de Aquino não via o corpo como uma prisão para a alma, mas como parte integrante da pessoa humana. Cuidar da saúde física não era um ato de vaidade, mas um dever moral. Um corpo saudável é um instrumento mais apto para a prática das virtudes, para o trabalho, para a oração e para o serviço ao próximo.

  • Longevidade e Propósito: A busca por uma vida longa, portanto, não deve ser vista como um fim em si mesma. Viver mais, na perspectiva cristã e tomista, é valioso porque oferece mais tempo para amar a Deus, servir aos outros e crescer em virtude. A ciência que nos ajuda a prolongar a vida de forma saudável é, nesse sentido, uma ferramenta valiosa para que possamos cumprir melhor nosso propósito.

A Ciência Confirma a Sabedoria Clássica

Se Santo Tomás de Aquino pudesse analisar os dados da USP, ele provavelmente não ficaria surpreso. Ele veria o estudo não como uma descoberta revolucionária, mas como uma confirmação empírica de verdades filosóficas profundas.

Ele nos diria que os "minutos" ganhos ou perdidos não são apenas números em uma planilha, mas o resultado visível de uma batalha interior: a escolha entre a ordem da temperança, que promove a vida, e a desordem da gula, que a consome.

A pesquisa nos convida, portanto, a ir além da contagem de calorias e a refletir sobre o porquê de nossas escolhas. Ela nos lembra que cada refeição pode ser um pequeno ato de virtude, um passo em direção a uma vida não apenas mais longa, mas também mais plena, ordenada e virtuosa.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

A Morte do Juiz Frank Caprio: O que Santo Tomás de Aquino Diria Sobre a Justiça, a Misericórdia e a Vida Eterna

 

A notícia do falecimento do Juiz Frank Caprio, aos 88 anos, ressoou globalmente, gerando uma onda de luto e gratidão. Conhecido como "o juiz mais legal do mundo", sua fama não derivou de sentenças implacáveis, mas de uma sabedoria que parecia transcender os códigos e estatutos. Diante da sua morte, muitos se perguntam sobre seu legado. Nós, contudo, devemos elevar a questão a um patamar superior, investigando-a com o rigor da filosofia perene: o que a vida e a morte de um homem como Frank Caprio nos ensinam quando vistas pela ótica de Santo Tomás de Aquino? Como o Doutor Angélico interpretaria o juiz que agora enfrenta o Juiz Supremo?

A Justiça Perfeita: Para Além da Lei, a Virtude da Equidade

O primeiro e mais evidente ponto de contato entre a prática do Juiz Caprio e o pensamento tomista reside na aplicação da justiça. Para Santo Tomás, a justiça é a virtude cardeal que consiste na "constante e perpétua vontade de dar a cada um o que é seu por direito" (Summa Theologiae, II-II, q. 58, a. 1). Contudo, o Aquinate, herdeiro de Aristóteles, sabia que a aplicação cega e literal da lei pode, paradoxalmente, levar à injustiça. É aqui que entra uma virtude superior, anexa à justiça: a equidade (ou epikeia).

A equidade, para Tomás, não é uma correção da lei, mas o seu aperfeiçoamento. O legislador humano cria leis universais, mas é impossível prever todas as circunstâncias particulares. Em certos casos, seguir a letra da lei iria contra a intenção do próprio legislador, que é o bem comum. O juiz que age com equidade, portanto, não despreza a lei, mas a cumpre em seu espírito, julgando como o próprio legislador julgaria se estivesse presente e ciente daquela situação específica.

Os vídeos virais do tribunal de Providence eram verdadeiras aulas práticas sobre a epikeia. Ao analisar o contexto de uma mãe desesperada, de um veterano de guerra idoso ou de um jovem que cometeu um erro trivial, o Juiz Caprio não estava simplesmente "sendo bonzinho"; ele estava exercendo a mais alta forma de prudência jurídica. Ele buscava a verdade do ato no contexto da vida humana, compreendendo que a verdadeira justiça visa restaurar a ordem e educar, não apenas punir. Ele via a pessoa por trás do réu, algo que a fria letra da lei não pode fazer, mas que a razão iluminada pela caridade exige.

A Lei Natural no Coração do Tribunal

Por que as decisões de Frank Caprio ressoavam em culturas e religiões tão distintas ao redor do mundo? A resposta tomista é clara: ele apelava para a lei natural. Santo Tomás de Aquino ensina que a lei natural é a participação da criatura racional na lei eterna de Deus. São preceitos morais fundamentais que a razão humana pode descobrir por si mesma, independentemente da revelação divina. Princípios como "fazer o bem e evitar o mal", "preservar a vida" e "viver em sociedade" estão inscritos em nossos corações.

Quando o juiz perdoava uma multa de trânsito ao ouvir a história de dificuldades de uma pessoa, mas a advertia com conselhos paternais, ele não estava criando uma nova lei. Ele estava aplicando princípios da lei natural que todos nós reconhecemos: a compaixão diante do sofrimento, a importância da família, o respeito pelos idosos, a necessidade de segundas chances. Sua autoridade moral não vinha apenas do Estado de Rhode Island, mas de sua capacidade de conectar a lei positiva (os códigos de trânsito) com essa lei mais profunda e universal, que todos os homens de boa vontade podem compreender. Ele demonstrava que a ordem social floresce quando suas leis estão em harmonia com a natureza humana, criada por Deus.

O Sofrimento, a Fé e o Juízo Particular

A jornada final do Juiz Caprio, marcada pela luta contra o câncer e seu último pedido de orações, oferece uma poderosa meditação sobre a dor e a . Em uma cultura que frequentemente vê o sofrimento como um mal absoluto a ser evitado a todo custo, a perspectiva cristã, articulada por Santo Tomás, o vê como um mistério que pode ter valor redentor. O sofrimento, quando unido ao de Cristo na Cruz, pode se tornar um meio de purificação e santificação.

O vídeo de Caprio em seu leito de hospital não foi um ato de desespero, mas uma profunda declaração de fé e humildade. Ele, o juiz que deteve o poder de julgar outros em assuntos terrenos, reconheceu publicamente sua total dependência de um poder superior e da caridade de seus irmãos através da oração. Foi o ato final de um homem que compreendeu que a vida terrena é uma peregrinação e que, ao final, todos nós somos réus diante do Tribunal Divino.

E o que diria Santo Tomás sobre este momento, agora, após sua morte? O Doutor Angélico seria categórico ao ensinar sobre o Juízo Particular. Imediatamente após a alma se separar do corpo, ela se apresenta diante de Deus para ser julgada sobre seus atos, pensamentos e omissões. Não é um julgamento com advogados e apelações; é um momento de pura verdade, onde a alma compreende instantaneamente sua condição em relação a Deus, o Sumo Bem.

Não nos cabe, evidentemente, especular sobre o resultado deste juízo. Apenas Deus sonda os corações. Contudo, a teologia católica nos permite ter uma esperança bem fundamentada. As Sagradas Escrituras são claras: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5:7). E ainda: "o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia" (Tiago 2:13).

A vida pública de Frank Caprio foi um testemunho contínuo da misericórdia. Ele viveu a virtude que, segundo Santo Tomás, é a maior das virtudes em relação ao próximo, pois busca remediar a miséria alheia. Podemos ter a piedosa esperança de que o juiz que tanto exerceu a misericórdia na Terra, temperando a justiça com a compaixão, tenha encontrado diante de si um Juiz cuja principal característica é, precisamente, a Misericórdia Infinita.

O Legado de um Juiz Tomista em Ação

Frank Caprio pode nunca ter lido a Suma Teológica, mas sua vida e sua prática jurídica foram uma encarnação dos mais nobres princípios defendidos por Santo Tomás de Aquino. Ele nos lembrou que a justiça sem misericórdia é crueldade, e que a lei existe para servir ao homem, e não o homem para servir à lei. Sua fama mundial não foi um acidente das redes sociais, mas a consequência natural da sede que a humanidade tem por uma justiça que seja verdadeiramente humana e, portanto, um reflexo da justiça divina.

Ao lamentar sua morte, devemos também celebrar seu testemunho. Ele nos mostrou que é possível ser um homem de autoridade e poder, e usá-los não para oprimir, mas para elevar. Em um mundo cada vez mais polarizado e legalista, a memória do Juiz Frank Caprio é um farol de esperança, um exemplo vivo da síntese tomista entre razão e fé, entre justiça e caridade, que agora, esperamos, contempla a Face daquele que é a própria Justiça e a própria Misericórdia.