sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A Conversão do Maníaco do Parque? Uma Análise Tomista Sobre Graça, Perdão e a Verdadeira Mudança da Alma

 

A Conversão do Maníaco do Parque? Uma Análise Tomista Sobre Graça, Perdão e a Verdadeira Mudança da Alma

A recente notícia de que Francisco de Assis Pereira, conhecido nacionalmente como o "Maníaco do Parque", afirma ser "um novo homem" e planeja mudar de nome ao se aproximar da liberdade, suscita um profundo debate que transcende o âmbito jurídico e criminal. Para a sociedade, a questão é de segurança e justiça. Para a fé, é uma indagação sobre os limites da maldade humana e o alcance da misericórdia divina. Diante de um caso tão extremo, como podemos discernir a autenticidade de uma transformação? A filosofia perene de Santo Tomás de Aquino nos oferece uma estrutura robusta e teologicamente profunda para analisar o que significa uma verdadeira conversão, distinguindo o arrependimento genuíno da mera aparência.

A Arquitetura do Mal: O Pecado como Desordem da Alma

Para compreender a possibilidade de conversão, precisamos primeiro entender, sob a ótica tomista, a natureza do pecado que a precede. Santo Tomás de Aquino ensina que todo pecado é, em sua essência, uma aversão a Deus (aversio a Deo) e uma conversão desordenada às criaturas (conversio ad creaturam). O pecador não escolhe o mal pelo mal, pois o mal é uma ausência de bem. Ele escolhe um bem aparente e finito (prazer, poder, riqueza) em detrimento do Bem Sumo e Infinito, que é Deus, o fim último de toda a criação.

Os crimes de Francisco de Assis Pereira representam uma ilustração trágica e radical dessa desordem. A vontade, que deveria se inclinar para o bem e para a verdade, se corrompeu a ponto de se deleitar naquilo que é a privação máxima do bem: a destruição da vida, imagem e semelhança do Criador. Para o Doutor Angélico, atos de tal magnitude não surgem do nada; eles são o clímax de uma série de escolhas que afastaram a alma de sua ordenação natural a Deus. Cada pecado, por menor que seja, debilita a vontade e obscurece o intelecto, tornando mais fácil a queda em pecados ainda mais graves. A condição de Pereira, antes de sua suposta conversão, era a de uma alma em estado de profunda desordem, cativa de paixões que governavam uma razão escravizada.

O Motor da Mudança: A Indispensável Graça Divina

Poderia um homem, por suas próprias forças, reverter um estado de depravação tão profundo? A resposta tomista é um sonoro "não". A mudança que a fé cristã chama de conversão (metanoia) não é um mero ato de vontade humana, uma resolução psicológica ou um projeto de autoajuda. É, fundamentalmente, uma obra sobrenatural. Santo Tomás, seguindo Agostinho, é enfático: para se levantar do pecado mortal, o homem necessita da Graça Divina como auxílio.

Ele distingue a graça operante da graça cooperante. A graça operante é o primeiro movimento, a iniciativa que vem inteiramente de Deus. É Deus quem, sem violar nosso livre-arbítrio, toca o coração do pecador e o move interiormente para que ele comece a se arrepender. É uma luz que ilumina o intelecto para que reconheça a feiura do pecado e uma força que move a vontade para que deteste essa mesma ofensa. Sem essa primeira intervenção divina, a alma, por si só, permaneceria em sua miséria. Portanto, a primeira pergunta a se fazer sobre a alegação de Pereira não é "ele decidiu mudar?", mas sim "Deus operou em sua alma?".

Somente após a ação da graça operante é que o homem pode, com sua vontade agora curada e elevada, cooperar com Deus através da graça cooperante, praticando atos de virtude e perseverando no bem. A mudança de nome e a declaração de ser "um novo homem" só teriam validade teológica se fossem o fruto dessa cooperação, e não a causa da mudança.

Contrição Verdadeira vs. Atrição: O Coração do Arrependimento

A teologia moral católica, profundamente influenciada por Aquino, faz uma distinção crucial entre dois tipos de arrependimento: a atrição e a contrição.

A atrição é o arrependimento imperfeito. Ele nasce do medo da punição (o inferno, a justiça humana) ou da consideração da feiura do pecado de uma forma mais servil. Embora seja um dom de Deus e um bom começo, a atrição por si só não justifica a alma. Uma pessoa pode dizer "estou arrependido" simplesmente porque as consequências de seus atos se tornaram insuportáveis. No caso de Pereira, o desejo de liberdade, de uma nova identidade social e de escapar do estigma de seus crimes poderia ser o motor de um arrependimento atrito.

A contrição, por outro lado, é o arrependimento perfeito. Ela brota do amor a Deus, que foi ofendido pelo Pecado. O pecador contrito não se arrepende primariamente por medo, mas por ter traído o Amor Sumo. Ele lamenta ter se afastado de seu Fim Último. Esse arrependimento inclui, necessariamente, um propósito firme de não mais pecar. É um ato de caridade para com Deus.

Como podemos, externamente, ter indícios de uma contrição verdadeira? Santo Tomás diria que devemos olhar para os frutos. A verdadeira contrição leva à confissão (o reconhecimento humilde da culpa), à satisfação (a tentativa de reparar o mal feito) e a uma mudança de vida concreta e duradoura. A vontade de reparar, mesmo quando a reparação completa é impossível — como no caso de tirar uma vida —, é um sinal essencial. Será que a nova vida que Pereira almeja inclui atos concretos de penitência e reparação, na medida do possível, ou apenas uma busca por paz e anonimato pessoal?

O Tribunal de Deus e o Tribunal dos Homens: Justiça e Perdão

Uma das maiores dificuldades em casos como este é conciliar a infinita misericórdia de Deus com a necessária Justiça humana. Para Santo Tomás, não há contradição. A justiça humana tem como fim a preservação da ordem social, a correção do delinquente (um aspecto medicinal) e a retribuição pelo mal cometido. O cumprimento da pena por Francisco de Assis Pereira é uma exigência dessa justiça terrena.

O Perdão divino, por sua vez, opera em outra esfera. Deus pode perdoar o pecador mais vil no instante em que ele se volta para Ele com um coração contrito. Esse perdão restaura a graça santificante na alma e a amizade com Deus. Contudo, ensina Aquino, o perdão da culpa não elimina necessariamente toda a pena temporal devida pelo pecado. A necessidade de purificação e de satisfação permanece.

Portanto, mesmo que, hipoteticamente, Deus tenha perdoado Pereira em seu foro íntimo, isso não anula sua dívida para com a sociedade. A justiça humana deve seguir seu curso. A verdadeira conversão não busca anular a pena, mas aceitá-la como parte do processo de purificação e reparação. Um convertido que compreende a gravidade de seus atos não clama por liberdade como um direito, mas a aceita, se vier, como uma misericórdia imerecida, e abraça sua punição como justa.

Conclusão: O Veredito que Pertence a Deus

A alegação de conversão de Francisco de Assis Pereira nos coloca diante de um mistério: o da consciência humana e da ação da graça divina. Do ponto de vista tomista, não nos cabe julgar o estado último de sua alma, pois apenas Deus pode sondar os corações. No entanto, a sã doutrina nos fornece critérios para uma análise prudente.

A possibilidade de sua transformação é real, pois a potência da graça de Deus é infinitamente maior que a miséria humana. A história da salvação está repleta de conversões radicais, de São Paulo a Santo Agostinho. Contudo, a autenticidade dessa mudança não se mede por declarações à imprensa ou por gestos simbólicos como a mudança de um nome. Ela se mede pelos frutos de uma contrição verdadeira: a humildade, o desejo de reparação, a aceitação da justiça e uma vida de penitência perseverante.

Para nós, que observamos de fora, o caso serve como um poderoso lembrete das verdades fundamentais da : a terrível realidade do pecado, a absoluta necessidade da graça para nos reerguermos, a distinção entre o remorso humano e o arrependimento divino, e a harmonia entre a justiça que ordena o mundo e a misericórdia que salva a alma. Se a conversão do "Maníaco do Parque" for genuína, não será uma vitória de Francisco de Assis Pereira, mas um triunfo retumbante e misterioso da Graça de Cristo, que desceu às profundezas do abismo para resgatar o que estava perdido.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Carla Zambelli Presa? Uma Análise Tomista Sobre a Justiça, a Perseguição e a Salvação da Alma em Tempos de Crise

 

Nos últimos dias, os motores de busca e as redes sociais foram tomados por uma avalanche de pesquisas e notícias com um tema central: Carla Zambelli presa. A possibilidade da detenção de uma deputada federal, seja na Itália por alegações do deputado Angelo Bonelli ou em solo nacional, acende um estopim em um cenário político já conflagrado. Contudo, para além da veracidade factual do evento, que muitas vezes se perde na névoa da desinformação, a situação nos convida a uma reflexão mais profunda, a uma análise que transcenda o partidarismo e mergulhe nas raízes do que entendemos por justiça, poder e, em última instância, o propósito do homem na sociedade. Sob a luz da filosofia de São Tomás de Aquino, podemos desvelar as camadas deste complexo momento, não para defender uma facção, mas para buscar a verdade que orienta o bem comum e a salvação das almas.

A Justiça Divina e a Justiça dos Homens: Uma Perspectiva Tomista

Para São Tomás de Aquino, a justiça é "a constante e perpétua vontade de dar a cada um o que lhe é devido" (Summa Theologiae, II-II, q. 58, a. 1). Esta definição, herdada do direito romano, ganha no tomismo uma dimensão transcendente. A justiça dos homens, expressa nas leis positivas, só é verdadeiramente justa quando está em conformidade com a Lei Natural, que por sua vez é uma participação da Lei Eterna, que reside na própria mente de Deus.

Quando o poder judiciário, encarnado em figuras como o ministro Alexandre de Moraes, age de forma que gera na população uma percepção generalizada de parcialidade ou de excesso, o que está em jogo não é apenas a biografia de um político. O que se corrói é a própria fundação da Justiça como virtude social. Uma decisão pode ser legal, no sentido de seguir os ritos processuais, mas ser profundamente injusta se for desproporcional, se visar a aniquilação de um adversário em vez da restauração da ordem, ou se aplicar pesos e medidas diferentes para situações análogas. A crise que vivemos, exemplificada pela celeuma em torno da deputada Carla Zambelli, é uma crise de confiança na capacidade do sistema de "dar a cada um o que lhe é devido".

O Bem Comum Ameaçado pela Percepção de Perseguição

O conceito de Bem Comum é central no pensamento político tomista. Ele não é a soma dos bens individuais, mas o conjunto de condições sociais que permitem aos indivíduos e às famílias alcançarem mais plena e facilmente a sua própria perfeição, inclusive a espiritual. A paz, a segurança jurídica e a concórdia social são componentes essenciais do Bem Comum.

Ações judiciais que são percebidas como uma "caça às bruxas" ou uma "perseguição política" — independentemente de sua motivação real — são veneno para o Bem Comum. Elas geram medo, incerteza e ressentimento. Fomentam a divisão e minam a confiança nas instituições, que deveriam ser as guardiãs da ordem social. Do ponto de vista da fé, um clima de perseguição e instabilidade política é um obstáculo à evangelização e à vida virtuosa, pois as paixões políticas inflamadas desviam o foco do homem de seu fim último: Deus. A preocupação com a "prisão de Zambelli", as acusações de Joice Hasselmann ou as manobras da Interpol se tornam o centro da vida de muitos, obscurecendo a busca pela santidade.

A Virtude da Prudência e o Exercício do Poder

Se a justiça é o objetivo, a prudência é a virtude que guia o caminho. Para São Tomás, a prudência é a "reta razão no agir" (recta ratio agibilium), a capacidade de discernir o verdadeiro bem em cada circunstância e de escolher os meios adequados para realizá-lo. Um juiz, especialmente de uma suprema corte, não pode ser apenas um aplicador mecânico da lei; ele precisa ser eminentemente prudente.

Suas decisões devem considerar não apenas o caso concreto, mas as repercussões de seus atos para toda a sociedade. Ações que, mesmo sob o manto da legalidade, incendeiam ainda mais o país, aprofundam a polarização e são vistas como arbitrárias, falham no teste da prudência. Elas podem até atingir um objetivo legal imediato, mas a um custo altíssimo para o Bem Comum e para a estabilidade do Estado de Direito. A questão que um tomista se faz é: as recentes decisões do judiciário brasileiro têm sido prudentes? Elas promovem a paz ou a discórdia?

A Resposta Cristã: Oração, Verdade e a Salvação da Alma

Diante de um cenário tão conturbado, onde nomes como Carla Zambelli e Alexandre de Moraes se tornam símbolos de uma batalha campal, a perspectiva católica nos chama a uma postura radicalmente diferente daquela do mundo. A primeira resposta não é o ataque, mas a oração. São Paulo nos exorta a orar "pelos reis e por todos os que estão em autoridade, para que possamos viver uma vida tranquila e serena, em toda a piedade e honestidade" (1 Timóteo 2:2). Devemos rezar pela conversão e iluminação de todos os envolvidos: dos juízes, para que ajam com justiça e prudência; dos políticos, para que busquem o verdadeiro Bem Comum; e do povo, para que não se deixe levar pelo ódio.

A nossa luta, como ensina a fé, não é primariamente política. O verdadeiro inimigo é o pecado, e a verdadeira perseguição é aquela que tenta afastar a alma de Deus. A preocupação central da Igreja não é se a "direita" ou a "esquerda" vence, mas se as almas se salvam. E um ambiente de injustiça, mentira e ódio é um campo fértil para a perdição. A relação entre Fé e Política deve ser sempre ordenada para este fim último.

Conclusão: Para Além da Notícia, a Busca pela Ordem

A questão "Carla Zambelli foi presa?" pode dominar as manchetes e os debates acalorados. Para um observador com a mente informada pelo tomismo, no entanto, esta é apenas a superfície de uma crise mais profunda. A verdadeira crise é a do abandono dos princípios de uma justiça fundamentada na verdade, de um poder exercido com prudência e de uma sociedade orientada para o Bem Comum.

Enquanto a justiça dos homens vacila e se torna palco de paixões políticas, cabe a nós elevar o olhar para a Justiça Divina, que não falha. Cabe-nos clamar não pela vitória de nosso "lado", mas pela restauração de uma ordem social justa, que permita a cada pessoa buscar livremente seu verdadeiro fim. Que as tribulações do presente nos sirvam não como motivo para o desespero e o ódio, mas como um chamado à oração, à penitência e a um engajamento mais profundo na construção de uma sociedade que reflita, ainda que palidamente, a ordem e a justiça do Reino de Deus.