A cena pública contemporânea frequentemente nos confronta com situações que, à primeira vista, parecem meros atos administrativos ou decisões processuais, mas que, sob um escrutínio filosófico mais profundo, revelam complexas tensões entre a lei positiva e os imperativos da Lei Natural. Recentemente, a notícia de uma decisão judicial que indeferiu o pedido para a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em nosso Congresso Nacional, referente a questões financeiras envolvendo uma instituição bancária, convida-nos a uma reflexão séria sob a luz da sabedoria de São Tomás de Aquino.
O ato de impedir o início de uma investigação legislativa não é neutro. Ele toca diretamente naquilo que é o cerne da vida em sociedade e da busca pela verdade: a apuração dos fatos e a consequente atribuição de responsabilidades. Para o Aquinate, o homem, por sua própria natureza racional, é impelido à busca do bem e à fuga do mal. Essa inclinação primordial está inscrita na própria lex naturalis, a Lei Natural, que é uma participação da razão eterna de Deus na criatura racional. Assim, o desejo de compreender o que se passou e de retificar o que está torto não é uma mera conveniência política, mas uma exigência inerente à nossa constituição moral.
A Lei Natural e o Dever de Conhecer a Verdade
A Lei Natural nos orienta a agir de acordo com a reta razão. Quando há suspeitas de irregularidades que podem lesar o corpo social, como as que frequentemente envolvem o sistema financeiro, a recta ratio dita que a verdade seja diligentemente buscada. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito, em sua finalidade primeira, é um instrumento legítimo da lei humana para desvelar a verdade e servir à justiça. Negar a sua instauração sem justificativa proporcionalmente grave pode ser interpretado como um obstáculo à manifestação da verdade, contrariando não apenas a lei positiva que permite tais investigações, mas também o princípio mais elevado da Lei Natural que exige a busca do bem e a evitação do mal, onde a ignorância deliberada de um mal potencial já é um desvio.
Justiça e Bem Comum: Pilares da Vida Política
A virtude da justitia (justiça) é uma das virtudes cardeais, fundamental para a ordem da sociedade. Tomás de Aquino a define como a constante e perpétua vontade de dar a cada um o que lhe é devido. No contexto público, isso significa que as instituições devem operar de forma a garantir que os cidadãos sejam tratados equitativamente e que aqueles que prejudicam o bonum commune (bem comum) sejam responsabilizados. O bem comum não é a soma dos bens individuais, mas a condição social que permite a cada membro da comunidade alcançar sua plena realização humana e espiritual. A integridade do sistema financeiro e a transparência de suas operações são cruciais para o bem comum, pois afetam a confiança pública, a estabilidade econômica e a justa distribuição de bens.
Quando um poder judicial interfere para impedir a investigação de fatos que podem afetar o bem comum, surge a questão da adequação de tal ato à virtude da prudência. A prudentia (prudência) é a reta razão no agir, que nos capacita a discernir o verdadeiro bem em cada circunstância e escolher os meios adequados para alcançá-lo. Um juízo prudente, por parte de um magistrado, deve sempre visar o fortalecimento da justiça e a promoção do bem comum. Se a decisão de negar uma CPI não for evidentemente motivada por um bem maior ou pela ineficácia manifesta do instrumento investigativo, mas sim por outros interesses ou conveniências, ela se afasta da reta razão e, consequentemente, da virtude.
A Finalidade Teleológica das Instituições Humanas
Toda instituição humana possui uma finalidade, um telos. O fim último da sociedade política é possibilitar que os homens vivam virtuosamente e alcancem seu fim último, que é a beatitude em Deus. As leis humanas, incluindo as regras processuais e as decisões judiciais, devem estar ordenadas a este fim. Quando a aplicação da lei positiva se torna um obstáculo à investigação da verdade e à consecução da justiça, ela corre o risco de se desviar de sua própria finalidade. Não é suficiente que uma ação seja legal no sentido formal; ela deve também ser moralmente justa e teleologicamente orientada para o bem.
Em suma, a recusa em instaurar uma CPI sobre assuntos financeiros levanta sérias questões para a consciência tomista. A busca da verdade e a aplicação da justiça são mandamentos da Lei Natural. O bem comum exige transparência e responsabilização. A prudência na decisão judicial deve sempre se alinhar com a recta ratio, visando a fortalecer as virtudes sociais e não a criar sombras sobre a conduta dos poderosos. Que nossos magistrados e legisladores sejam sempre guiados pela luz da razão e da fé, para que suas ações contribuam efetivamente para a edificação de uma sociedade mais justa, virtuosa e verdadeiramente ordenada ao bem.
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