sexta-feira, 13 de março de 2026

Gênesis 1: A Criação Divina e a Ordem do Cosmos

1. No princípio, Deus criou os céus e a terra.

2. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.

3. Deus disse: "Haja luz", e houve luz.

4. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.

5. Deus chamou à luz "dia" e às trevas "noite". Houve uma tarde e uma manhã: o primeiro dia.

6. Deus disse: "Haja um firmamento no meio das águas, e que ele separe as águas das águas."

7. Deus fez o firmamento, e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das águas que estavam por cima do firmamento. E assim se fez.

8. Deus chamou ao firmamento "céu". Houve uma tarde e uma manhã: o segundo dia.

9. Deus disse: "Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a terra seca." E assim se fez.

10. Deus chamou à terra seca "terra", e ao ajuntamento das águas "mares". Deus viu que era bom.

11. Deus disse: "Produza a terra vegetação: ervas que deem semente, e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, com sua semente neles, sobre a terra." E assim se fez.

12. A terra produziu vegetação: ervas que davam semente segundo a sua espécie, e árvores que davam fruto com sua semente neles, segundo a sua espécie. Deus viu que era bom.

13. Houve uma tarde e uma manhã: o terceiro dia.

14. Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais para as estações, para os dias e para os anos."

15. "Sirvam eles de luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra." E assim se fez.

16. Deus fez os dois grandes luzeiros: o luzeiro maior para governar o dia, e o luzeiro menor para governar a noite; e as estrelas.

17. Deus os pôs no firmamento do céu para iluminar a terra,

18. para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. Deus viu que era bom.

19. Houve uma tarde e uma manhã: o quarto dia.

20. Deus disse: "Pululem as águas de seres vivos, e voem aves sobre a terra, sob o firmamento do céu."

21. Deus criou os grandes monstros marinhos e todo ser vivo que se move, com que pululam as águas, segundo as suas espécies, e toda ave alada segundo a sua espécie. Deus viu que era bom.

22. Deus os abençoou, dizendo: "Sede fecundos, multiplicai-vos, e enchei as águas dos mares; e as aves multipliquem-se sobre a terra."

23. Houve uma tarde e uma manhã: o quinto dia.

24. Deus disse: "Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens da terra, segundo a sua espécie." E assim se fez.

25. Deus fez os animais selvagens da terra segundo a sua espécie, os animais domésticos segundo a sua espécie, e todos os répteis da terra segundo a sua espécie. Deus viu que era bom.

26. Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra."

27. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

28. Deus os abençoou e lhes disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra."

29. Deus disse: "Eis que vos dou toda erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra, e toda árvore que tem em si fruto que dá semente; ser-vos-ão para alimento."

30. "E a todo animal da terra, a toda ave do céu e a todo réptil que rasteja sobre a terra, a tudo que tem sopro de vida, eu dou toda erva verde para alimento." E assim se fez.

31. Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: o sexto dia.


Comentário Tomista

O primeiro capítulo do Livro do Gênesis não é meramente uma narrativa poética ou um mito cosmogônico; é a revelação fundamental da relação entre Deus e a criação, um pilar inabalável para a teologia e filosofia tomista. Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica e em outros escritos, debruça-se sobre este texto para elucidar a natureza de Deus, a bondade da criação e a posição única do homem no cosmos.

Para Tomás, o versículo inicial, "No princípio, Deus criou os céus e a terra" (Gn 1,1), estabelece a doutrina central da criação ex nihilo – do nada. Isso significa que Deus não moldou uma matéria preexistente, como defendiam algumas filosofias antigas, mas sim tirou o ser da não-existência por um ato puro de Sua vontade e intelecto infinitos. Deus é a Causa Primeira eficiente de tudo o que existe, e tudo depende d'Ele para o seu ser e para a sua conservação. Este ato criador é a manifestação da Sua onipotência e sabedoria perfeitas, não um ato de necessidade, mas de livre e superabundante bondade divina.

A progressão dos "dias" da criação, embora possa ser interpretada de diversas maneiras (como o próprio Santo Agostinho sugere em seu De Genesi ad Litteram, sobre uma criação simultânea cujas obras são narradas em ordem didática para a inteligência humana, ou como Tomás que, embora por vezes inclinasse a uma interpretação mais literal das divisões, sempre priorizou o significado teológico do ordo), revela a ordem intrínseca do universo. Deus estabelece uma hierarquia de seres, do informe e vazio inicial à complexidade da vida vegetal e animal, culminando na criação do homem. Cada etapa reflete a inteligência divina que ordena o universo de acordo com uma finalidade (teleologia). A luz é para a visibilidade, o firmamento para a separação, a terra seca para a habitação e a produção de vida, os astros para governar o tempo e servir de sinais. Cada criatura é ordenada a um bem específico, e todas juntas são ordenadas ao Bem Supremo, que é Deus mesmo.

A repetida afirmação "Deus viu que era bom" (Gn 1,4.10.12.18.21.25) e, finalmente, "eis que era muito bom" (Gn 1,31) após a criação do homem, é crucial para a metafísica tomista. Ela sublinha a bondade intrínseca de tudo o que foi criado por Deus. O mal, segundo Tomás, não é uma substância ou um princípio coeterno com o bem, mas uma privação do bem devido, uma ausência de perfeição onde ela deveria estar. A criação é, em sua essência, boa porque procede de um Deus perfeitamente bom.

O ápice da criação é o homem, criado "à nossa imagem, à nossa semelhança" (Gn 1,26). Para Santo Tomás, a imagem de Deus no homem reside principalmente em sua alma racional, dotada de intelecto e vontade. É por estas faculdades que o homem é capaz de conhecer e amar a Deus, de discernir o bem e de buscar a verdade. Essa capacidade racional e volitiva confere ao homem uma dignidade singular e uma responsabilidade de governar a criação (Gn 1,28), agindo como vice-regente de Deus na terra. A finalidade última do homem é a beatitude, alcançada na união com Deus pela visão beatífica, o que eleva a existência humana acima de todas as outras criaturas materiais.

Em suma, Gênesis 1 é, para o pensamento tomista, a narrativa primordial da verdade de que Deus é o Criador de tudo o que existe, que Ele o fez com sabedoria e bondade, e que a criação possui uma ordem intrínseca e uma finalidade que aponta para o seu Criador. É o fundamento da nossa compreensão da natureza de Deus, da realidade do mundo e do propósito do homem, convidando-nos à reverência e à adoração do Sumo Bem.

A Soberania, a Razão e o Bem Comum: Uma Análise Tomista sobre Intervenções Estrangeiras

A Soberania, a Razão e o Bem Comum: Uma Análise Tomista sobre Intervenções Estrangeiras

A recente notícia sobre a solicitação e posterior recusa de uma reunião de um emissário estrangeiro, ligado a um ex-chefe de Estado de outra nação, com uma figura política proeminente em nosso país e, subsequentemente, com representantes do Itamaraty, convida-nos a uma profunda reflexão sobre os fundamentos da ordem política e das relações internacionais à luz da filosofia perene de São Tomás de Aquino. O fato em si é direto: um representante de interesses políticos estrangeiros buscou acesso a autoridades e ex-autoridades brasileiras, e a administração vigente optou por negar tais encontros, invocando princípios de reciprocidade e soberania.

Mais do que um mero incidente diplomático ou uma contenda política interna, este evento nos interpela a examinar os princípios morais e teleológicos que devem reger a ação do Estado. A questão central, sob uma ótica tomista, não é a simpatia ou antipatia por esta ou aquela figura política, mas sim a salvaguarda do Bem Comum (bonum commune) e o alinhamento das decisões humanas com a Lei Natural (lex naturalis).

O Estado e o Bem Comum: O Fim Último da Ordem Política

Para São Tomás, toda a sociedade política existe em função do Bem Comum. Este não se confunde com a soma dos bens individuais, mas é aquela condição de ordem e justiça que permite a cada indivíduo buscar seu próprio aperfeiçoamento e, em última instância, seu fim último. A autoridade política tem como principal função ordenar as ações dos cidadãos e as relações entre as nações para este fim. Quando um emissário estrangeiro busca interlocução em solo nacional, a primeira pergunta que se impõe à luz da reta razão é: esta interação serve ao Bem Comum da nação?

Intervenções, mesmo que veladas ou informais, de agentes externos na política interna de um Estado soberano, tendem a subverter a ordem natural das coisas. A lex naturalis, inscrita na razão humana, dita que cada comunidade política tem direito à sua autonomia e à autodeterminação, desde que suas leis e ações não contradigam os preceitos universais da justiça e da moral. A soberania é, portanto, um princípio derivado da Lei Natural, essencial para a manutenção da paz e da estabilidade, tanto interna quanto externamente.

Virtudes em Ação: Prudência e Justiça na Governança

A decisão de permitir ou negar um encontro de tal natureza exige o exercício de virtudes cardeais essenciais aos governantes. A Prudência (prudentia) é a mais crucial neste contexto. Ela é a "reta razão na ação", a virtude intelectual que permite discernir o verdadeiro bem em cada circunstância e escolher os meios adequados para alcançá-lo. Um governante prudente deve avaliar as consequências potenciais de suas ações, considerando não apenas o presente, mas o futuro da nação. Permitir uma reunião que possa ser interpretada como um sinal de ingerência estrangeira ou que possa inflamar divisões internas, sem uma justificativa clara de benefício ao Bem Comum, seria uma falha na prudência.

Junto à prudência, a Justiça (iustitia) é igualmente fundamental. A justiça, que dá a cada um o que lhe é devido, exige que o Estado proteja sua integridade e seus interesses legítimos. No âmbito internacional, a justiça se manifesta no respeito à soberania mútua e na observância dos preceitos diplomáticos. A exigência de reciprocidade, mencionada no caso em tela, é uma manifestação concreta da virtude da justiça nas relações entre Estados. Não se trata de uma retaliação mesquinha, mas de uma reafirmação da dignidade e igualdade soberana entre as nações.

A Teleologia da Decisão Estatal

A finalidade da ação do Estado deve ser sempre o bem-estar e a segurança de sua população. Assim, a decisão de negar a reunião pode ser vista como uma ação teleologicamente orientada para a preservação da ordem interna e da autonomia nacional. Se o objetivo do emissário estrangeiro fosse, de alguma forma, influenciar a política doméstica ou promover interesses que não se alinham com o Bem Comum brasileiro, então a decisão de barrar a visita se coaduna com a reta razão e com os princípios da boa governança.

As leis humanas (lex humana), como as que regulam a entrada e a permanência de estrangeiros em território nacional e as que definem os protocolos diplomáticos, são justas na medida em que derivam da Lei Eterna (lex aeterna) por meio da Lei Natural. Elas servem como instrumentos para ordenar a vida social e proteger os bens essenciais da comunidade. Quando aplicadas para salvaguardar a soberania e evitar perturbações à ordem política, tais leis e decisões executivas agem em conformidade com a moral tomista.

Conclusão

Em suma, a decisão de negar a reunião do emissário estrangeiro com figuras políticas brasileiras, quando motivada pela salvaguarda da soberania nacional, pela manutenção da ordem e pela promoção do Bem Comum, alinha-se aos princípios da filosofia tomista. É um ato de prudência e justiça, essencial para que a nação preserve sua integridade e possa seguir o caminho de seu próprio desenvolvimento, livre de ingerências externas que possam desviar sua atenção do verdadeiro fim de sua existência política: o florescimento de seus cidadãos em um ambiente de paz e justiça, conforme a Lei Natural e a sabedoria divina.

Sobre a Enfermidade na Prisão: Uma Reflexão Tomista acerca da Dignidade Humana e do Bem Comum

Sobre a Enfermidade na Prisão: Uma Reflexão Tomista acerca da Dignidade Humana e do Bem Comum

Notícias recentes informam que um antigo chefe de Estado, atualmente em condição de restrição de liberdade, foi levado a uma unidade hospitalar após sentir-se mal. Tal ocorrência, por sua natureza, transcende a mera crônica jornalística, convidando-nos a uma reflexão mais profunda sob a ótica da filosofia perene de São Tomás de Aquino, em especial no que tange à lex naturalis, à virtude e ao bonum commune.

A Inerente Dignidade da Pessoa Humana e a Lei Natural

A enfermidade é uma condição universal da existência humana, um lembrete pungente de nossa finitude e fragilidade. Para São Tomás, o homem é um composto de corpo e alma, e a saúde corporal é um bem intrínseco, necessário para a plenitude da vida humana e para a consecução de seu fim último. A dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, é inalienável e subsiste independentemente de suas ações passadas, de seu status social ou de sua condição legal.

A Lei Natural, gravada no coração de cada homem, preceitua a conservação da vida e a preservação da integridade física. Ora, se esta lei impera sobre o indivíduo, exigindo-lhe o cuidado de si, com muito maior razão impõe-se ao Estado, especialmente quando este assume a custódia de um cidadão. Ao privar um indivíduo de sua liberdade, o Estado não apenas assume a responsabilidade por sua segurança, mas também por sua saúde e bem-estar básicos. Negar cuidados médicos adequados a quem se encontra sob custódia seria uma afronta direta aos ditames da Lei Natural, uma vez que a vida e a saúde são bens primários que nenhuma lei humana pode legitimamente ignorar ou suprimir.

Justiça, Caridade e o Bem Comum na Administração Pública

A filosofia tomista da justiça não se resume a uma mera retribuição por atos ilícitos. A justiça, uma das virtudes cardeais, exige que se dê a cada um o que lhe é devido. No contexto de uma privação de liberdade, o que é devido ao indivíduo, para além do cumprimento da pena ou medida judicial, são as condições mínimas para a preservação de sua vida e dignidade. A lex humana, para ser justa e derivar da lex aeterna (a Lei Eterna), deve ser ordenada à razão e ao bonum commune. Uma lei ou uma prática que desconsidera a saúde de um detido não se harmoniza com esses princípios.

Adicionalmente, não podemos ignorar a virtude da caridade. Mesmo para com aqueles que consideramos adversários ou cujas ações reprovamos, a caridade cristã nos impele a reconhecer neles a comum humanidade e a agir com compaixão. Não se trata de abrandar a justiça ou anular as responsabilidades, mas de tratar a pessoa humana com a deferência que lhe é inerente. O desprezo pela dor alheia, independentemente da identidade do sofredor, revela uma deficiência moral que distancia a sociedade do ideal de perfeição.

O Bem Comum, que é o conjunto de condições sociais que permite aos indivíduos e grupos alcançar sua própria perfeição mais plena e mais fácil, é profundamente afetado pela maneira como uma sociedade trata seus membros mais vulneráveis ou em condição de subordinação. Uma nação que assegura tratamento digno e cuidados essenciais a todos, inclusive aos que estão sob custódia judicial, fortalece a sua própria estrutura moral e demonstra um apego inabalável aos princípios da reta razão e da humanidade.

Teleologia da Lei e das Ações Humanas

Segundo São Tomás, a finalidade última da lei humana é conduzir os homens à virtude e, em última instância, à beatitude, ao bem supremo. Isso implica que a lei não pode ser instrumento de crueldade ou desumanidade. A finalidade da pena, do ponto de vista tomista, não é a vingança, mas a correção do culpado (quando possível), a proteção da sociedade e a restauração da ordem justa. Em nenhum desses propósitos a negação de cuidados médicos tem lugar; ao contrário, a provisão de tais cuidados é congruente com o respeito pela vida e pela dignidade, valores que a própria lei humana deve proteger.

A saúde, embora um bem temporal, é condição para que o homem possa exercer sua razão e sua vontade livre, buscando bens maiores e, por fim, seu destino eterno. Privar alguém de cuidados médicos necessários é, portanto, atentar contra a possibilidade de o indivíduo cumprir seu próprio propósito existencial.

Em conclusão, a enfermidade de qualquer homem, sobretudo de um que se encontra sob o jugo da lei, é um lembrete veemente de nossa condição compartilhada e da exigência perene da caridade e da justiça. O juízo humano deve ser sempre prudente e temperado, mantendo a reta razão e os princípios morais inabaláveis, mesmo em face de paixões políticas ou polarizações sociais. A dignidade da pessoa humana, a Lei Natural e o Bem Comum devem ser as balizas que orientam todas as nossas ações e a administração da justiça, elevando o espírito humano para além das contingências e das animosidades temporais, rumo ao que é verdadeiro, bom e justo.

A Enfermidade como Espelho da Condição Humana: Lições da Lei Natural em Tempos de Adversidade

A Enfermidade como Espelho da Condição Humana: Lições da Lei Natural em Tempos de Adversidade

Em um tempo de intensa polarização e constante escrutínio público, somos notificados de que uma figura política proeminente, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi hospitalizado com sintomas como calafrios e vômitos. Longe de qualquer juízo de valor sobre o indivíduo ou sua trajetória, o evento em si nos convida a uma reflexão mais profunda, que transcende as disputas mundanas e nos remete à inelutável condição humana, à luz dos princípios da filosofia tomista.

A Fragilidade Inerente e a Lei Natural

A enfermidade que acometeu o ex-presidente é um lembrete vívido da fragilidade intrínseca à existência humana. Independentemente de poder, status ou influência, todo homem está sujeito às leis da natureza que governam o corpo. São Tomás de Aquino nos ensina que a Lei Natural (lex naturalis) é a participação da criatura racional na Lei Eterna, a própria razão divina que governa o universo. Parte dessa lei natural manifesta-se na ordem biológica e física, que inclui a susceptibilidade do corpo à doença, ao desgaste e, em última instância, à morte.

Não há lei humana, decreto ou posição social que possa isentar o indivíduo desta realidade. A dor e a enfermidade são, portanto, universais, atravessando todas as barreiras sociais e políticas. Este fato, por si só, aponta para uma verdade mais fundamental sobre nossa existência: somos seres finitos, contingentes, dependentes de uma ordem que nos precede e que nos transcende.

A Busca pelo Bem e o Fim Último do Homem

A teleologia tomista nos recorda que toda ação humana é orientada para um fim, e o fim último do homem é a beatitude, a união com Deus. A saúde é um bem corpóreo que nos auxilia na busca do bem da alma, permitindo-nos agir com maior liberdade e eficácia na consecução de nossos propósitos. Quando a saúde é comprometida, somos forçados a reavaliar nossas prioridades e a considerar a transitoriedade de todos os bens terrenos.

A doença pode ser um catalisador para a introspecção, um momento em que a alma se volta para sua própria condição e para o que realmente importa. Ela nos lembra que, embora busquemos bens como poder, riqueza ou reconhecimento, estes são apenas bens parciais e não o Bem Supremo. O verdadeiro bem reside naquilo que é imutável e eterno, e nossa existência terrena é um caminho para esse fim.

As Virtudes em Face da Adversidade

Nesse contexto de enfermidade, a ótica tomista nos convida a considerar a manifestação de diversas virtudes, tanto naquele que sofre quanto na sociedade que observa:

  • Fortaleza (Fortitudo): A virtude da fortaleza é essencial para suportar a dor física e o sofrimento com constância e paciência, sem se deixar abater pelo desespero. É a capacidade de perseverar no bem, mesmo diante de grandes dificuldades.
  • Temperança (Temperantia): A enfermidade muitas vezes exige moderação nos hábitos, aceitação das limitações e controle sobre os apetites e paixões desordenadas que podem agravar o quadro. É um chamado à sobriedade e ao reconhecimento dos limites impostos pela condição corpórea.
  • Caridade (Caritas): Em um sentido mais amplo, a notícia de enfermidade de qualquer ser humano deveria evocar em nós o Bem Comum da humanidade, a solicitude mútua e a caridade. Embora a política possa dividir, a experiência da dor e da fragilidade é comum a todos, e o impulso natural da caridade nos move a desejar a recuperação e o bem-estar do próximo, independentemente de filiações.

A caridade, virtude teologal por excelência, nos inclina a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Diante da dor alheia, somos chamados a recordar essa inclinação, mesmo que o amor fraternal seja por vezes obscurecido pelas paixões políticas.

Conclusão: A Reta Razão e o Fim Último

A enfermidade de qualquer homem, seja ele público ou anônimo, é um convite perene à Reta Razão (recta ratio). Ela nos impele a reconhecer a ordem estabelecida por Deus na criação, a humildade de nossa própria condição e a necessidade de orientar nossas vidas não pelos bens transitórios, mas pelo Fim Último. Este fim é a contemplação do Bem Supremo, para o qual todas as nossas ações e sofrimentos podem, se bem ordenados, contribuir.

Que tais eventos nos sirvam não para alimentar a contenda, mas para elevar o olhar do que é meramente terreno para o que é eterno; do particular para o universal; da paixão política para a verdade filosófica e teológica que unifica toda a experiência humana sob a Providência Divina.